Há 4 anos, na véspera de uma corrida de 10 km, veio na minha cabeça a ideia um tanto quanto maluca de “por que não fazer uma maratona?”.
No dia seguinte, na corrida, comentei com meu então treinador sobre isso. Ele deu muita força, mas fez uma ressalva, vamos nos preparar com calma para esta prova – até então o máximo que tinha feito era 10 milhas (16 km).
No mês seguinte tinha uma prova de meia maratona e fiz essa prova me sentindo muito bem.
No ano seguinte, que seria o planejamento de fazer maratona, um problema de saúde familiar e também por não ter tido nenhuma maratona perto de onde eu moro fez com que eu adiasse mais um pouco.
Bom, aí veio a pandemia e com isso muitas corridas canceladas.
No final de 2021 voltei a participar de corridas fazendo novamente meia maratona. Nesta eu não fui tão bem quando havia feito antes, mas o suficiente para servir como estímulo para treinar para maratona.
Assim que saiu o circuito de corridas de 2022 fixei a data da maratona. Fiz todo meu planejamento de treinos focando nessa data. Mesmo assim, esperei até o último momento para fazer a inscrição (até fiz um tópico aqui sobre preparação para maratona o que me ajudou muito, tanto nos treinos finais quanto no incentivo).
Dois dias antes da prova comecei a sentir dor de garganta o que me fez até cogitar não participar da corrida.
Penso que numa prova tão longa como essa você precisa começar “zerado”: treinado, descansado, bem alimentado e, dentro do possível, sem nenhum incômodo.
Enfim, ontem foi o dia.
O dia estava ideal para a prova. Temperatura bem amena e até uma chuva fina no início da prova.
E lá se foi a largada as 5:30.
A estratégia que fiz para prova é respeitar a maratona até a metade da prova. A metade seguinte vai do jeito que der.
E a primeira parte foi exatamente na forma que planejei: ritmo de prova, hidratação, carbo gel, ... . Tudo indo bem.
Bem na metade da prova a cabeça já começou a querer “falhar”.
Parte dizia: já passou da metade.
Já outra parte dizia: Ainda está na metade. Já está com dor, cansado. Você não vai conseguir.
E, justamente nesta parte, é dentro de uma universidade. Você da uma volta de uns 3 km lá dentro, e ficava uma sensação ruim do tipo, estou dando uma volta aqui dentro e não estou me aproximando da chegada.
Prometi a mim mesmo, vou completar essa parte dentro da universidade, depois que sair eu vejo o que faço.
E fui assim, dividindo a parte final em etapas. O objetivo no momento não era chegar ao km 42. E sim chegar até a próxima etapa e daí decidir o que fazer.
E fui “vencendo” essas etapas.
Percebi que precisava diminuir essas etapas. O que no início era: vou chegar até o próximo ponto de hidratação, passou a ser 10 minutos, depois 1 km ...
Quando faltavam 10 km já pensava, cansaço não vai me parar agora. Só paro por causa de lesão grave.
E comecei a “contagem regressiva”.
Faltando 5 km já fazia as contas que mesmo caminhando até o final chegaria com folga dentro do limite da prova que era 6 horas. Incrivelmente nesta hora a cabeça mudou de posição com o corpo. O corpo pedia para andar e a cabeça pedia para correr. E fui nessa alternância.
Faltando 2 km minha esposa, que havia participado dessa prova numa distância menor, foi me “buscar”. Ela encontrou comigo e foi correndo junto comigo até os metros finais quando também encontrei um amigo que estava me aguardando – impressionante como esse incentivo ajuda demais.
Já na reta final não sentia mais dor nenhuma, ainda dei um sprint para completar a prova antes de 4:30 hrs. Se tinha diferença entre fazer menos ou mais do que 4:30? Pode parecer que não, mas na hora muita tinha diferença.
Daí para frente foi aquela sensação única. Emoção, felicidade, dor, ... Dever cumprido
Posso dizer com toda sinceridade: “Ninguém nunca se arrependeu de chegar”.