Minha primeira ultramaratona | 13 respostas

Minha primeira ultramaratona

@QKXO
em 10/07/2023 12:55
Completei minha primeira ultramaratona (55Km) aproximadamente um ano após iniciar os treinos de corrida de trilha. O feito, que pode ser absolutamente trivial para atletas amadores mais experientes, acostumados a correr provas de 50 milhas, 100Km e 100 milhas, para mim foi uma jornada épica. Foram 12 horas e 40 minutos de prova entre subidas (+3.300m) e descidas (-3.700m) que pareciam intermináveis. O desnível de elevação, seria algo correspondente a subir e descer a Pedra da Gávea 4 vezes. Meu ímpeto e humor oscilaram, assim como o clima na montanha. Sob sol e calor, chuva fina e rajadas de vento gelado (altitude beirando os 2.500 metros nos cumes) corri e caminhei (ao contrário do que muita gente pensa, em alguns trechos, principalmente com subidas muito inclinadas, não corremos, fazemos uma caminhada intensa, com ou sem a ajuda de bastões) ao longo de bosques floridos, estradas de terra, túneis, descampados de pedras e cascalho, cachoeiras, riachos e lagos cristalinos. 

O momento crucial ocorreu no km 27, depois de uma subida intensa. Após fazer mais de 200 ultrapassagens “escalaminhando” e correndo sobre blocos de pedras, me sentindo forte e confiante, subitamente meu abdômen travou. Uma dor intensa e difusa tornou impossível me manter correndo. Me arrastei pelos próximos 8 km sem conseguir ingerir nada além de água, tentando inútil e desesperadamente voltar a correr. Meu plano de nutrição, algo chave para se completar esse tipo de prova, ia por água abaixo. Olhava todo tipo de alimento que tinha levado e tudo me dava ânsia de vômito. Eu sabia que precisava voltar a comer pois ainda estava na metade da prova. O cérebro viu a brecha, o nervosismo, o receio e veio com tudo pra me parar. Tinham me alertado, é antes de tudo uma batalha mental. “Porque me meti nessa? Qual o sentido disso? É só parar. É compreensível. Seguir pode ser irresponsável. Amigos e família me entenderão. Não preciso provar nada pra ninguém. Tudo bem parar. Dei azar nessa.” E quanto mais razoáveis os argumentos, mais pesada a perna ficava, mais lenta a caminhada. Eu comecei a chorar, decepção profunda.. mas segui andando na esperança que aquilo passasse.

Um mal estar profundo dominou o físico e o mental mas, de algum lugar completamente desconhecido pra mim, surgiu a lembrança de todo o sacrifício dos últimos meses de treinamento, do tempo abdicado com minha família, das lesões (foram 3 nos primeiros 6 meses de treinamento), da disciplina espartana com que cuidei da alimentação e do corpo (musculação e alongamento), dos treinos que começavam com o céu ainda escuro e sob a chuva, dos amigos que acompanhavam e torciam em tempo real pelo gps. Lembrei da minha mãe, falecida meses antes da prova, pedi ajuda a ela em voz alta: “ Me ajuda!”. E passei a falar em vez de pensar, descobri que fala vem de algum outro lugar, um lugar muito mais forte que a razão: “ Você vai até o final. Vai com dor de barriga. Vai sem comer. Você vai até o final. Vai como der. Se não der pra correr, anda. Vai andar até cair no chão e não levantar mais. Você vai até o final.”.

No km 35, consegui evacuar e a dor na barriga foi lentamente desaparecendo, permitindo que eu voltasse a correr aos poucos. Ao suportar e continuar de pé nesse duelo mental, algo absolutamente novo aconteceu, a dor e o cansaço me colcaram numa espécie de transe, uma euforia tomou conta dos pensamentos e as pernas voltaram. Simplesmente segui, anestesiado de qualquer dor, cansaço ou desconforto. Voltei a correr forte, ainda enjoado, e consegui chegar ao km 41 (minha primeira maratona).

Após 15 minutos sentado tentando inutilmente empurrar um macarrão no posto de abastecimento, parti para o último trecho, uma subida com um pouco mais de 1.000 metros, seguidos de uma descida ainda maior, ao longo de 15km). Agora sob chuva fina, ameaça de trovoadas e vento forte. Além disso, agora a luta era contra o relógio, eu precisava fechar a prova antes do tempo de corte de 14 horas. Meia hora a mais e já teriam me segurado e eliminado nesse mesmo posto. Ainda sem conseguir comer nada sólido, me mantive à base de laranjas e coca-cola, coloquei a mochila e parti.

Após um trecho de subida muito íngreme num bosque fechado, vendo muita gente deitada ao lado da trilha em completa estafa, cheguei a um descampado, que marcava a metade do caminho até próximo ao cume. Meu professor de corrida, sem o qual eu jamais teria enfrentado esse desafio, tinha me alertado: ele preferia não olhar pra cima nas subidas. Mas é claro que olhei pra cima na esperança de dimensionar o desafio. Vi figuras humanas minúsculas em fila ao longe, bem ao longe. A energia escorreu do corpo, chorei novamente, o cérebro tentou um último apelo: “Se minha síndrome iliotibial aparecer novamente (um fantasma que me acompanhou ao longo dos meses de preparação), não vou completar a prova de jeito nenhum. Vou ficar preso lá em cima, sem poder ir pra frente ou voltar pra cá.”. Minhas coxas latejavam de dor. Respirei fundo, coloquei o anorak, baixei a cabeça e comecei a subir, um pé após o outro, não iria mais olhar pra cima e ver quanto faltava. Falei em voz alta novamente: “Você só vai parar quando chegar lá em cima, sem descanso no meio”. Entrei novamente num transe onde parecia que a percepção do tempo ficava totalmente distorcida, foi como se o corpo caminhasse sozinho, de forma contínua e automática, ignorando qualquer desconforto físico. 

Cheguei finalmente ao cume e ”acordei”. Rajadas de vento geladas, era impossível ficar de pé, todos correndo agachados, alguns deitados no chão, bonés sendo retirados das cabeças e arremessados ao longe. Sentei numa pedra, olhei o cenário deslumbrante e ameaçador de uma pré tempestade a mais de 2000 metros de altitude. Larguei os bastões e comecei a chorar. Um tipo de choro novo pra mim, confuso, prazeroso, que deu sentido a toda aquela loucura. Falei em voz alta novamente, agora em primeira pessoa: “Consegui. É só descer”.

Perto da chegada, assim como em pontos ao longo da prova, surgem rostos desconhecidos que incentivam todos os corredores. Mas a alegria de ver rostos conhecidos na reta final, de pessoas com quem se compartilhou os treinos e toda a preparação, é tamanha que você sente que poderia seguir correndo por horas. A sensação de cruzar a linha de chegada é algo absolutamente impossível de descrever.

A montanha é um símbolo potente, uma metáfora perfeita da vida, com seus altos e baixos, momentos tranquilos e momentos de provação, da sua imprevisibilidade, da mistura de dor e beleza. E a corrida é a metáfora perfeita sobre como navegar a vida: seguir, seguir e seguir.
@BrunoSG
em 10/07/2023 13:06
Que relato incrível!!!
Parabéns por essa conquista! Você foi fera demais!
#1 de 13
@iugerroc
em 10/07/2023 13:28
Parabéns. Admiro mt ultramaratonista, ainda mais de trail. 
Ainda quero ser um, mas de asfalto. 
Correr trail, em meio a natureza, lugares onde mtas vezes vai estar so vc e Deus (seja lá qual seja o seu) e a criação Dele, deve ser fantástico. 
#2 de 13
@DogeOfWallStreet
em 10/07/2023 13:42
Parabéns pela prova, um dia ainda pretendo chegar ao nível de fazer uma ultra maratona de montanha

Por enquanto minha maior distância em trail foram 10 km, e 21 km no plano.. falta bastante pra eu evoluir

Aonde a sua prova @qkxo , na Serra Fina?
#3 de 13
@OuroReal
em 10/07/2023 13:42
Cara, que relato fabuloso, parabéns! Muita garra, preparo, superação e força mental!
#4 de 13
@hilkon3
em 10/07/2023 14:58
Muito legal hein

Parabéns pela coragem e por não desistr. Esses desafios que vc tem a opção de simplesmente parar são os mais complicados, é impressionante como a mente te afeta. Estou para postar minhas dicas de longão e lá tem uma: nunca reclame e só abra a boca pra ser positivo. Nesse meu pedal maluco de sábado na hora de se despedir de um krakudo ele falou "porra, não vi vc reclamando nenhuma vez. só ficava falando como o nascer, o pôr do sol e as montanhas são bonitos". Mas oq eu posso fazer se a natureza é tão bonita?

Ciclismo não sofre tanto mas dá pra se aventurar também. Não posto foto da situação da minha bunda pq seria mto indelicado da minha parte
#6 de 13
@Melekao
em 10/07/2023 20:15
Experiência e relato muito legais! Aonde foi isso!?
#7 de 13
@MojoRisin
em 10/07/2023 20:37
Que relato, tá maluco! Parabéns @QKXO!
#8 de 13
@OuroReal
em 10/07/2023 21:30

postado por @hilkon3 em 10/07/2023 14:58
Não posto foto da situação da minha bunda pq seria mto indelicado da minha parte


Agradecemos de coração por isso, com toda sinceridade! Suas roupas suadas e salgadas do outro post já foram suficiente RS
#9 de 13
@ngdi
em 11/07/2023 08:04
Que relato!!!  Parabéns, que superação, pqp!  Gostaria de saber como foram seus treinos; sonho em fazer ultras também!!!
#10 de 13
@Barao_Bigode_Style
em 15/07/2023 14:35
Caramba que relato maravilhoso!! Parabéns.

Também vejo a corrida e o esporte como metáfora da vida. É bom se lembrar disso com o relato dos outros e ver que isso também ressoa por aí!

Isso que os camaradas falaram de reclamar é importantíssimo. Para pra reclamar uma vez e já era... Se segura em algo e segue em frente!

Eu estou contente em correr maratonas, acho que uma elevação e distância dessas q vc falou já seria demais pro meu joelho que já reclama hehehe

Parabéns!!! Siga escrevendo seus relatos!! Eles inspiram muita gente!

Muitíssimo obrigado!!
#12 de 13
@acsm1
em 22/07/2023 12:25
Mt bom! Parabéns cara, que relato incrivel, deu até vontade de dar uma corrida hoje a tarde 
#13 de 13

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