Completei minha primeira ultramaratona (55Km) aproximadamente um ano após iniciar os treinos de corrida de trilha. O feito, que pode ser absolutamente trivial para atletas amadores mais experientes, acostumados a correr provas de 50 milhas, 100Km e 100 milhas, para mim foi uma jornada épica. Foram 12 horas e 40 minutos de prova entre subidas (+3.300m) e descidas (-3.700m) que pareciam intermináveis. O desnível de elevação, seria algo correspondente a subir e descer a Pedra da Gávea 4 vezes. Meu ímpeto e humor oscilaram, assim como o clima na montanha. Sob sol e calor, chuva fina e rajadas de vento gelado (altitude beirando os 2.500 metros nos cumes) corri e caminhei (ao contrário do que muita gente pensa, em alguns trechos, principalmente com subidas muito inclinadas, não corremos, fazemos uma caminhada intensa, com ou sem a ajuda de bastões) ao longo de bosques floridos, estradas de terra, túneis, descampados de pedras e cascalho, cachoeiras, riachos e lagos cristalinos.
O momento crucial ocorreu no km 27, depois de uma subida intensa. Após fazer mais de 200 ultrapassagens “escalaminhando” e correndo sobre blocos de pedras, me sentindo forte e confiante, subitamente meu abdômen travou. Uma dor intensa e difusa tornou impossível me manter correndo. Me arrastei pelos próximos 8 km sem conseguir ingerir nada além de água, tentando inútil e desesperadamente voltar a correr. Meu plano de nutrição, algo chave para se completar esse tipo de prova, ia por água abaixo. Olhava todo tipo de alimento que tinha levado e tudo me dava ânsia de vômito. Eu sabia que precisava voltar a comer pois ainda estava na metade da prova. O cérebro viu a brecha, o nervosismo, o receio e veio com tudo pra me parar. Tinham me alertado, é antes de tudo uma batalha mental. “Porque me meti nessa? Qual o sentido disso? É só parar. É compreensível. Seguir pode ser irresponsável. Amigos e família me entenderão. Não preciso provar nada pra ninguém. Tudo bem parar. Dei azar nessa.” E quanto mais razoáveis os argumentos, mais pesada a perna ficava, mais lenta a caminhada. Eu comecei a chorar, decepção profunda.. mas segui andando na esperança que aquilo passasse.
Um mal estar profundo dominou o físico e o mental mas, de algum lugar completamente desconhecido pra mim, surgiu a lembrança de todo o sacrifício dos últimos meses de treinamento, do tempo abdicado com minha família, das lesões (foram 3 nos primeiros 6 meses de treinamento), da disciplina espartana com que cuidei da alimentação e do corpo (musculação e alongamento), dos treinos que começavam com o céu ainda escuro e sob a chuva, dos amigos que acompanhavam e torciam em tempo real pelo gps. Lembrei da minha mãe, falecida meses antes da prova, pedi ajuda a ela em voz alta: “ Me ajuda!”. E passei a falar em vez de pensar, descobri que fala vem de algum outro lugar, um lugar muito mais forte que a razão: “ Você vai até o final. Vai com dor de barriga. Vai sem comer. Você vai até o final. Vai como der. Se não der pra correr, anda. Vai andar até cair no chão e não levantar mais. Você vai até o final.”.
No km 35, consegui evacuar e a dor na barriga foi lentamente desaparecendo, permitindo que eu voltasse a correr aos poucos. Ao suportar e continuar de pé nesse duelo mental, algo absolutamente novo aconteceu, a dor e o cansaço me colcaram numa espécie de transe, uma euforia tomou conta dos pensamentos e as pernas voltaram. Simplesmente segui, anestesiado de qualquer dor, cansaço ou desconforto. Voltei a correr forte, ainda enjoado, e consegui chegar ao km 41 (minha primeira maratona).
Após 15 minutos sentado tentando inutilmente empurrar um macarrão no posto de abastecimento, parti para o último trecho, uma subida com um pouco mais de 1.000 metros, seguidos de uma descida ainda maior, ao longo de 15km). Agora sob chuva fina, ameaça de trovoadas e vento forte. Além disso, agora a luta era contra o relógio, eu precisava fechar a prova antes do tempo de corte de 14 horas. Meia hora a mais e já teriam me segurado e eliminado nesse mesmo posto. Ainda sem conseguir comer nada sólido, me mantive à base de laranjas e coca-cola, coloquei a mochila e parti.
Após um trecho de subida muito íngreme num bosque fechado, vendo muita gente deitada ao lado da trilha em completa estafa, cheguei a um descampado, que marcava a metade do caminho até próximo ao cume. Meu professor de corrida, sem o qual eu jamais teria enfrentado esse desafio, tinha me alertado: ele preferia não olhar pra cima nas subidas. Mas é claro que olhei pra cima na esperança de dimensionar o desafio. Vi figuras humanas minúsculas em fila ao longe, bem ao longe. A energia escorreu do corpo, chorei novamente, o cérebro tentou um último apelo: “Se minha síndrome iliotibial aparecer novamente (um fantasma que me acompanhou ao longo dos meses de preparação), não vou completar a prova de jeito nenhum. Vou ficar preso lá em cima, sem poder ir pra frente ou voltar pra cá.”. Minhas coxas latejavam de dor. Respirei fundo, coloquei o anorak, baixei a cabeça e comecei a subir, um pé após o outro, não iria mais olhar pra cima e ver quanto faltava. Falei em voz alta novamente: “Você só vai parar quando chegar lá em cima, sem descanso no meio”. Entrei novamente num transe onde parecia que a percepção do tempo ficava totalmente distorcida, foi como se o corpo caminhasse sozinho, de forma contínua e automática, ignorando qualquer desconforto físico.
Cheguei finalmente ao cume e ”acordei”. Rajadas de vento geladas, era impossível ficar de pé, todos correndo agachados, alguns deitados no chão, bonés sendo retirados das cabeças e arremessados ao longe. Sentei numa pedra, olhei o cenário deslumbrante e ameaçador de uma pré tempestade a mais de 2000 metros de altitude. Larguei os bastões e comecei a chorar. Um tipo de choro novo pra mim, confuso, prazeroso, que deu sentido a toda aquela loucura. Falei em voz alta novamente, agora em primeira pessoa: “Consegui. É só descer”.
Perto da chegada, assim como em pontos ao longo da prova, surgem rostos desconhecidos que incentivam todos os corredores. Mas a alegria de ver rostos conhecidos na reta final, de pessoas com quem se compartilhou os treinos e toda a preparação, é tamanha que você sente que poderia seguir correndo por horas. A sensação de cruzar a linha de chegada é algo absolutamente impossível de descrever.
A montanha é um símbolo potente, uma metáfora perfeita da vida, com seus altos e baixos, momentos tranquilos e momentos de provação, da sua imprevisibilidade, da mistura de dor e beleza. E a corrida é a metáfora perfeita sobre como navegar a vida: seguir, seguir e seguir.