Vivemos em um tempo em que a inveja foi convertida em mercadoria. Não se trata mais de um vício oculto, mas de um motor da sociedade: a publicidade, as redes sociais, os gestos mais banais da vida social nos dizem o mesmo. Você deve desejar o que não tem, e quando alcançar, já será pouco, pois outro está acima. É uma escada interminável, um ciclo de insuficiência.
Nietzsche já percebia que a vida gregária tende a nivelar o indivíduo pelo olhar do outro: a comparação constante nos aprisiona ao rebanho, sufocando qualquer centelha de criação autêntica. Cioran, por sua vez, lembraria que a inveja é apenas mais uma forma de fadiga existencial, um sintoma de nosso mal-estar com a própria vida. Para ele, perseguir o que brilha no vizinho é apenas prolongar nossa miséria interior.
Os estóicos ofereceram um antídoto: aprender a distinguir o que está em nosso poder e o que não está. O carro, a aparência, a posição social, tudo isso pertence ao domínio da fortuna, que não controlamos. Nosso campo de soberania é mais modesto e, por isso mesmo, mais grandioso: nossas escolhas, nossos pensamentos, nossa capacidade de não ser arrastados pela corrente da inveja.
A “casca” contra o mercado da inveja não se cria por negação do mundo, mas pela construção de um olhar outro. Educação sólida, leituras que aprofundam, filosofia que disciplina: tudo isso prepara o indivíduo a reconhecer que a felicidade não desfila na rua, nem se exibe em vitrines. Ela se manifesta quando o sujeito não precisa medir-se pelo outro.
A liberdade começa quando cessamos de viver como reflexo do outro e já não nos curvamos às expectativas alheias.