Acho que de tanto ler as histórias do @Rolo, me lembrei essa semana de uma história de algumas décadas atrás...
Lembro que quando era criança, eu ia com meu pai no barbeiro para cortar o cabelo. Geralmente era uma longa caminhada (pelo menos na minha lembrança...) em um sábado de manhã. Chegávamos no salão do Seu Arno e lá meu pai e o Seu Arno tomavam um café, daqueles que ficavam na térmica. Eu ficava escutando as histórias e as discussões deles pois não tinha muito o que fazer. Meu pai não falava de mulheres, futebol, carros.... o assunto era economia, investimentos e fatos da vida. Ele era um grande amigo do meu pai, de longa data, antes de eu nascer inclusive. Só depois que a xícara esvaziava, íamos para a cadeira do barbeiro cortar o cabelo.
Seu Arno era barbeiro e foi a vida toda. Aquele salão era o preferido dele e junto com ele outros 5 barbeiros trabalhavam. Cada um pagava uma taxa por corte para o salão para pagar os custos de luz, água, aluguel, etc. Digo que era o salão preferido porque ele tinha mais outros dois no mesmo estilo em endereços diferentes, onde seus filhos foram trabalhar depois da gradução (porque gostavam do ambiente). Seu Arno acreditava em barbearias, em pequenos depósitos logísticos na cidade e em dólar americano. Além disso, lembro que ele tinha uma casinha na praia que alugava quando não estava usando, onde fazia questão de deixar umas cervejas na geladeira para o inquilino tomar quando chegasse. Seu forte não era a leitura, mas a matemática. Lembro que ele me dizia que a matemática e a poupança eram as coisas mais importantes a aprender. Que todos os barbeiros que trabalhavam alí ganhavam muito bem, mas como recebiam em espécie e por dia, não poupavam muito (ou quase nada). Ele separava ao menos o primeiro corte do dia para a poupança e daí investia em imóveis ou no dolar. Mesmo depois de uma idade avançada, ele continuava indo no salão e, mesmo sem clientes agendados, ficava lá esperando se algum chegaria, lendo jornal e tomando café. Era alí que a vida tinha gosto, atendendo as pessoas e fazendo amizades.
Hoje, muitos anos depois e com uma saudade no peito, percebo que ele já sabia que nada vencia o trabalho e aporte em valor. Estar lá esperando o cliente e fazer o melhor possível. Diversificar os investimentos (inclusive no exterior...em uma época que não existia internet). Fazer a sua parte, cuidar da sua vida e se afastar da manada (ou das fofocas, das disputas de classe, politica, etc). Muitas vezes queremos inventar moda, procurar rolo, correr na corrida dos ratos sendo que fazendo o simples bem feito e deixando o tempo agir, grandes conquistas podem aparecer.