(Aviso rápido de um relato nem tão rápido: não estou encorajando que sigam meu caminho, estou apenas relatando como foi a MINHA história).
Fumava diariamente desde os 23 (tragadas ocasionais perigosamente transgressoras desde adolescente). Hoje celebrando pouco mais de 1 ano sem nenhum troço de fumar (fará mais sentido para frente) com 44 fico feliz de não ter comemorado 20 anos de fumacê e apresento meu relato.
Comecei em um momento de estresse e relativa solidão, achei naquela caixinha quadrada um "amigo" que me fazia companhia. O período trevoso, como sempre, passou, o vício, como sempre, seguiu.
Nunca é uma adição tranquila, de todas a mais sem sentido. Algumas dorgas desinibem, dão (falsa) energia, dão 'brisa', o cigarro só fede e ameniza a agonia da sua falta que não existia antes dele. Mas é um vício.
A vida foi melhorando como um todo, emocional, financeiro, social... O danado do calcanhar gasoso de aquiles seguia lá, empesteando meu escritório. Comecei a treinar regularmente lá pelos 30, na minha cabeça a vozinha "Mas você fuma!". Melhorava a alimentação e cada vez foi ficando mais ridículo eu conviver com minha dissonância congnitiva.
Não faltaram tentativas de parar, a mais bem sucedida até então foi com a leitura de um livro que destrinchou meu entendimento do vício e parei com a brasa enebriante. Nesse período emprestei o livro para uma amiga tabagista que parou permanentemente e antes que me devolvesse eu tinha fraquejado e voltado ao 'amigo' da caixa quadrada.
Passou um tempo e meus pais pararam de fumar, depois do 60 anos de idade. Achei f*da e novamente me vi com mais de década de vício pensando se eu iria esperar os 60 pra conseguir algum resultado. Não sei por que não procurei um médico, sinceramente. Talvez a ansiedade que me dava só de cogitar a agonia da abstinência podia ser um motivo, ainda que inconsciente.
Eis que chega 2020, meu aniversário, como de costume celebrei com amigos, numa cerimônia de brasas, carnes e risadas. Vejo um amigo chupando um pendrive e pergunto o que é. Ele me apresenta o vape dizendo que o tinha feito parar de fumar nas últimas semanas e que fazia menos mal que chupar fumaça.
Caí no google e fui me informar, decidi experimentar. Não pretendo detalhar o meu caminho de estudos nem suas conclusões pois não quero encorajar ninguém a nenhum vício. Procure um bom profissional de saúde antes de tudo.
Peguei meu kit e fui soltar vaporzinho com cheiro de framboesa. Ainda que possam argumentar que era apenas outro vício, pela primeira vez nos últimos anos, havia cigarro na minha casa e eu não me importava. Essa sensação era deliciosa e passados algumas semanas joguei fora sem remorso o maço semi usado. O meu amigo? Tinha voltado ao cilindro de papel do tinhoso, a história se repete...
Segui por alguns anos, 2 ou 3 nesse novo vício, sem recaidas de cigarro. De certa forma socialmente mais aceito, eu não era mais uma chaminé mas sim um incenso macabro de chocolate com menta. Porém, vício é vício e pouco a pouco fui reduzindo o teor de nicotina. Só para referência numérica, sem detalhes técnicos, comecei com 30 a 50, fui para 20, 15, baixei pra 6 até chegar na menor dose disponível de 3mg/ml. Não havia disponível menor.
E fiquei matutando estratégias para zerar esse índice e comecei a comprar a essencia com 3, outra igual com 0 e misturava criando um inédito 1,5mg que, após algum tempo, acostumei.
Me preparei para o passo 'final' de zerar o elemento do vício, a nicotina. Pensei se a quantidade de nicotina já era pequena a ponto de estar desapercebida e chamei a minha cobaia favorita, eu, para um experimento. Peguei um com 3mg e outra identica com 0mg, tampei com adesivo o indicador de nicotina, sorteei e fui consumir meu narguilê portátil. Na primeira tentativa teve o efeito mamadeira, usava constantemente e fui conferir o teor, era 0mg, sinal de que eu ainda estava viciado quimicamente.
Segui com outras estratégias, em casa usava o 1,5 e quando ia para a rua usava o 0, recarregava o de 1,5 revezando com o de 0 e passados alguns meses quis fazer novamente o 'teste cego'. Fiz o mesmo procedimento e não notei diferença no uso, mas quando fui ver o teor, era o que tinha nicotina. Então vida que segue. Com novas tentativas de diminuir a nicotina, recarregava 1x com nicotina, 2x sem e coisas assim.
Até que fiz uma terceira vez o teste cego e não notei alterações no uso. Após uns 2 dias fui tirar o adesivo já esperando ver o indice de nicotina e vi estava 2 dias zerado de nicotina. Um recorde! Segui no zerado, ainda tendo um nicotinado ao alcance, pois a perspectiva de recaída me assustava. Ia mais ou menos na proporção de 5 sem para 1 com até que passados outros meses, tomei coragem de zerar totalmente. Eu era um ser desnicotizado, ainda que vaporento, bom? Não. Mas melhor.
O vício tem 2 faces, o químico que teoricamente eu estava livre e o mecânico que é o cacoete de estar sempre transformando meu redor em uma sauna.
Ei que completou quase ano sem nicotina e no me vejo celebrando meu aniversário com amigos em um restaurante na beira do rio, coisa fina e numa das idas ao banheiro esqueço o incenso de bolso e algum amigo do alheio (ou enviado dos céus?) toma pra si o que outrora era meu. Acordo no dia seguinte procurando o HD externo (nessa época eu já usava aparelhos que não faziam jus ao nome de pendrive) e não acho. Já ia procurar um novo aparelho que você quer comprar, é mais fácil que pão (Pensador, Gabriel, 1998) e pensei "Por que não tentar sair disso de vez?" e fui.
Certamente que ainda incomodado e com as mãos inquietas na busca de uso nocivo para elas, esse desgosto, menor que qualquer outro anterior do vício químico, foi diminuindo dia a dia.
Hoje? Comemoro 1 ano e pouco depois de parar com qualquer coisa que me entregue nicotina e/ou jogue fumaça ou vapor pro céu. Ganhei uns quilos na balança, mas isso vai embora logo, confio, uma batalha de cada vez.