
Monopólios e Monopsônios nas Cadeias Produtivas de Alimentos e Bebidas: plataformas esmagam produtores e restaurantes
A cadeia de alimentos e bebidas é uma das mais importantes da economia, mas também uma das mais concentradas. A recente fusão entre Marfrig e BRF — criando uma gigante de mais de R$ 150 bilhões de faturamento anual e controlando marcas icônicas como Sadia e Perdigão — ilustra como o setor está se tornando dominado por grandes plataformas empresariais, que exercem simultaneamente poder de monopólio (no lado da venda) e de monopsônio (no lado da compra).
Monopólio: Poder de Mercado na Venda
Quando poucas empresas controlam a oferta de carnes, bebidas ou outros produtos essenciais, elas podem ditar preços para supermercados, restaurantes e consumidores finais. Na prática, o pequeno restaurante ou o consumidor doméstico têm pouca alternativa de escolha. Essa concentração cria um mercado onde o preço deixa de ser determinado pela competição, e passa a ser definido pela estratégia de margens das grandes empresas, que buscam maximizar o retorno aos acionistas.
No caso da carne de frango ou bovina, o produtor final vê o preço do insumo variar pouco mesmo quando a commodity internacional sobe ou desce, porque o mercado interno é dominado por poucas processadoras e frigoríficos.
Monopsônio: Poder de Mercado na Compra
Do outro lado da cadeia, esses mesmos conglomerados são os principais compradores de aves, suínos e gado de milhares de pequenos produtores integrados. Quando existe apenas um comprador relevante em determinada região, o produtor rural não tem alternativa e precisa aceitar o preço imposto pela grande indústria.
Esse poder de monopsônio comprime a margem dos produtores e transfere renda do campo para o centro corporativo das empresas, onde se concentram os lucros. Assim, o valor agregado da cadeia se acumula na indústria de processamento e nas plataformas de distribuição, e não no elo primário da produção.
Plataformas de Distribuição: Outro Nível de Concentração
Além da produção e processamento, a distribuição também se tornou uma plataforma concentrada. Aplicativos de delivery como iFood ou redes de shoppings exercem poder de gatekeeper, cobrando taxas elevadas e ditando as regras de acesso ao mercado consumidor. Para restaurantes e bares, é praticamente impossível sobreviver sem estar presente nessas plataformas, o que cria uma dupla captura de valor: primeiro pela indústria de alimentos, depois pela plataforma que controla o acesso ao cliente final.
Consequências Econômicas
O resultado desse sistema é que o lucro total da cadeia fica cada vez mais concentrado em poucos players. Pequenos produtores de frango ou boi recebem preços baixos, restaurantes trabalham com margens apertadas e consumidores enfrentam preços elevados. Em outras palavras, a renda da cadeia é redistribuída para o topo, onde está o capital concentrado.
Caminhos Possíveis
Para reduzir os efeitos negativos dessa concentração, há algumas alternativas:
Fomento a cooperativas e associações de produtores, criando contrapoder de negociação. Políticas de defesa da concorrência, avaliando fusões e aquisições que possam reduzir ainda mais a competição. Transparência e regulação nas taxas cobradas por plataformas digitais e distribuidores, garantindo equilíbrio de forças. Inovação em canais diretos, como marketplaces alternativos que conectam produtores e consumidores de forma mais justa.
Monopólios e Monopsônios nas Cadeias Produtivas de Alimentos e Bebidas: plataformas esmagam produtores e restaurantes - Paulo Gala / Economia & Finanças