Mega obra cria rio de 130 quilômetros no meio do deserto com túneis, canais e bombas que cruzam Israel para levar água do Mediterrâneo a cidades, plantações e até reabastecer o Mar da Galileia
Sistema hídrico de Israel leva água ao deserto com aqueduto de 130 km e dessalinização do Mediterrâneo, mudando o abastecimento.
Sistema hídrico israelense conecta fontes do norte a áreas áridas, integra dessalinização do Mediterrâneo e reorganiza a distribuição de água em escala nacional, com impacto direto no abastecimento urbano, agrícola e na gestão de escassez em regiões próximas ao deserto do Neguev.
Israel estruturou, ao longo de décadas, um sistema nacional de infraestrutura hídrica destinado a levar água de regiões mais úmidas do norte para áreas com maior escassez, incluindo zonas próximas ao deserto do Neguev.
No centro desse arranjo está o Aqueduto Nacional, conhecido internacionalmente como National Water Carrier, uma malha integrada com cerca de
130 quilômetros em seu eixo principal.
O sistema reúne canais abertos, túneis, tubulações pressurizadas, reservatórios e estações de bombeamento que conectam fontes hídricas do norte à rede nacional de distribuição.
A concepção do projeto remonta ao início dos anos 1950, com as obras iniciadas em 1953 e a conclusão registrada em 1964.
À época, tratava-se da maior obra civil já realizada no país, com custo estimado em aproximadamente
420 milhões de liras israelenses, segundo registros oficiais do período.
A iniciativa respondia a uma necessidade estrutural: lidar com a irregularidade das chuvas, reduzir a pressão sobre aquíferos e garantir fornecimento estável para uma população em crescimento e para a agricultura, setor estratégico na formação do Estado.
Apesar de frequentemente descrito como um “rio artificial”, o Aqueduto Nacional não corresponde a um curso d’água natural escavado no leito do deserto.
Trata-se de uma
infraestrutura de transferência hídrica, projetada para transportar grandes volumes de água ao longo do território, combinando trechos a céu aberto e extensões subterrâneas.
Especialistas em recursos hídricos costumam destacar que a imagem de um rio correndo pelo deserto se deve, em parte, à presença de canais abertos de grande porte.
Um dos exemplos mais citados é o canal do vale de Beit Netofa, com cerca de
17 quilômetros de extensão, construído com base ovalada para se adaptar às características geológicas do solo local.
Observado do alto, esse tipo de estrutura cria a impressão visual de uma faixa contínua de água atravessando áreas áridas e agrícolas.
Ao longo do trajeto, o sistema se integra a ramais regionais, como o eixo Yarkon-Negev, responsável por levar água a localidades do centro e do sul.
O funcionamento depende de
controle rigoroso de vazão, pressão e qualidade, já que falhas em comportas, bombas ou reservatórios podem comprometer o abastecimento de municípios inteiros ou áreas agrícolas extensas.
A implantação do Aqueduto Nacional ocorreu em um contexto de forte preocupação com segurança hídrica.
As fontes naturais disponíveis, como rios e aquíferos, apresentavam limites claros diante da expansão demográfica e agrícola.
Documentos históricos indicam que, nos primeiros anos de operação, a maior parte da água transportada era destinada à irrigação, enquanto o consumo urbano crescia de forma gradual.
Com o passar do tempo, essa proporção se alterou.
Dados de órgãos israelenses mostram que o uso doméstico e urbano passou a representar parcela crescente da demanda, refletindo mudanças no perfil populacional e econômico do país.
Ainda assim, a infraestrutura permitiu sustentar projetos agrícolas em regiões menos favorecidas por chuvas, desde que associados a técnicas de
uso racional da água.
Nesse cenário, Israel passou a ser citado em estudos internacionais como um dos países que mais investiram em sistemas de irrigação localizada, como o gotejamento.
Segundo pesquisadores da área, a adoção dessas tecnologias buscou reduzir perdas por evaporação e infiltração, comuns em ambientes de clima seco, e maximizar o aproveitamento de cada metro cúbico transportado.
Dessalinização do Mediterrâneo muda a matriz de abastecimento
A partir dos anos 2000, o sistema hídrico israelense passou por uma inflexão relevante com a ampliação das usinas de dessalinização ao longo da costa do Mediterrâneo.
Baseadas principalmente em
osmose reversa, essas plantas passaram a transformar água do mar em água potável em escala industrial.
Relatórios de instituições do setor indicam que, com a entrada em operação de cinco grandes usinas, a dessalinização passou a responder por parcela significativa do abastecimento urbano.
Em determinados anos, estimativas oficiais apontam que
mais de 60% da água consumida no país teve origem no Mediterrâneo, reduzindo a dependência de fontes naturais em períodos de seca prolongada.
O processo envolve múltiplas etapas técnicas, incluindo pré-tratamento, filtragem fina e controle contínuo de parâmetros como salinidade e pressão.
Após a remoção do sal, a água passa por
remineralização, com ajustes químicos para atender aos padrões de potabilidade e compatibilidade com a rede.
Só então ela é incorporada aos reservatórios e sistemas de transporte já existentes.
Dimensão real da rede nacional de água
Parte da confusão em torno da dimensão da obra decorre da sobreposição de dados diferentes.
Enquanto o Aqueduto Nacional tem cerca de
130 quilômetros em seu eixo principal, a rede hídrica operada no país é muito mais extensa.
A empresa estatal Mekorot, responsável por grande parte da operação, informa que administra
aproximadamente 13 mil quilômetros de tubulações, além de centenas de estações de bombeamento, reservatórios e unidades de tratamento.
Pesquisadores do setor ressaltam que esses números dizem respeito à
malha completa de distribuição, e não a um único canal contínuo.
Ainda assim, o conjunto da infraestrutura é frequentemente citado como um dos mais complexos do Oriente Médio, tanto pela diversidade de fontes quanto pelo nível de integração entre transporte, tratamento e uso final.
Novos fluxos e ajustes recentes no sistema hídrico
Nos últimos anos, o sistema passou a operar também em sentido inverso ao original.
Em 2025, Israel iniciou o bombeamento de
água dessalinizada para o Mar da Galileia, principal reservatório natural de água doce do país, com o objetivo declarado de recompor seus níveis após períodos de estiagem.
Autoridades do setor hídrico apresentaram a iniciativa como parte de uma estratégia de estabilização do sistema no longo prazo.
Esse movimento ilustra como a dessalinização deixou de ser apenas uma fonte complementar e passou a desempenhar papel central na gestão dos recursos hídricos.
Para analistas da área, a infraestrutura construída ao longo de décadas permite hoje uma flexibilidade que não existia nas fases iniciais do Aqueduto Nacional.
Nesse contexto, a expressão “rio criado no deserto” funciona como uma síntese visual de um processo mais complexo: não a criação de um curso natural, mas a implementação de uma rede capaz de conduzir água de forma contínua por regiões onde a disponibilidade natural é limitada.
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