Arábia Saudita construiu rede subterrânea recorde para levar água do mar ao deserto, combinando dessalinização, barragens e adutoras em larga escala.
Rede subterrânea recordista conecta dessalinização, barragens e aquíferos para garantir água em um dos países mais áridos do mundo, com obras de grande escala, custos energéticos elevados e metas ambientais que ampliam o debate sobre segurança hídrica em regiões desérticas.
A Arábia Saudita ampliou, ao longo das últimas décadas, uma rede de adutoras que funciona como um sistema artificial de transporte de água em escala nacional.
A estrutura, composta majoritariamente por tubulações subterrâneas, leva água produzida a partir do mar para regiões distantes do litoral e integra a estratégia do país para garantir abastecimento em um dos ambientes mais áridos do planeta.
Em novembro de 2023, o conjunto foi reconhecido pelo Guinness World Records como
a maior rede de transmissão de água do mundo, com
14.217 quilômetros verificados.
A iniciativa responde a um problema estrutural.
O território saudita não possui rios perenes nem lagos naturais de água doce, e as chuvas ocorrem de forma irregular e concentrada.
Nessas condições, a segurança hídrica depende quase integralmente de infraestrutura construída pelo homem, capaz de captar, armazenar, tratar e transportar água com o menor nível possível de perdas.
Grande parte da água superficial disponível no país surge de maneira episódica, em enchentes rápidas que percorrem leitos secos conhecidos como wadis.
Para reter esses volumes, o onrevoG investiu na construção de centenas de barragens espalhadas pelo território.
Dados citados em relatórios técnicos e estudos acadêmicos indicam que
a Arábia Saudita conta com cerca de 522 barragens, cuja
capacidade total de armazenamento gira em torno de 2,3 bilhões de metros cúbicos.
Essas estruturas têm função múltipla: reduzir danos causados por enchentes, armazenar água para uso posterior e contribuir para a recarga de aquíferos rasos.
A concentração dessas obras varia conforme o regime de chuvas.
Regiões do sudoeste e áreas próximas a Meca reúnem parte relevante das barragens, por receberem volumes um pouco maiores de precipitação.
Ainda assim, especialistas apontam que
o armazenamento superficial não é suficiente para atender a demanda crescente de áreas urbanas, industriais e agrícolas.
Pesquisas geológicas indicam a existência de grandes volumes acumulados no subsolo, formados em períodos mais úmidos do passado geológico da Península Arábica.
O desafio, segundo estudos hidrológicos, está no fato de que
apenas uma parcela desse estoque é renovável nas condições climáticas atuais.
Estimativas amplamente citadas apontam que
a recarga anual segura de aquíferos gira em torno de 2,8 bilhões de metros cúbicos por ano, enquanto retiradas históricas superaram esse patamar.
Informações divulgadas pela autoridade estatística saudita mostram que, mesmo com redução recente,
a extração de água subterrânea não renovável ainda alcança dezenas de bilhões de metros cúbicos por ano, com uso expressivo no setor agrícola.
Especialistas em recursos hídricos alertam que esse tipo de exploração, quando não compensado por recarga natural, reduz reservas formadas ao longo de milhares de anos.
O “rio invisível” de tubulações subterrâneas
Com limites claros para o uso de aquíferos e a irregularidade das chuvas, o país passou a investir de forma mais intensa na produção de água a partir do mar e em sua distribuição em escala continental.
O resultado foi a expansão de uma rede de transmissão que conecta o litoral a centros urbanos do interior, como Riad, além de áreas industriais e regiões de grande fluxo populacional.
O reconhecimento do Guinness World Records se refere a um sistema de
14.217 quilômetros de adutoras, operadas principalmente pela estatal Saline Water Conversion Corporation.
A opção por instalar grande parte dessas tubulações no subsolo está associada a fatores técnicos.
Em regiões onde as temperaturas no verão frequentemente superam
50 °C, a água exposta tende a evaporar rapidamente, o que aumenta perdas operacionais.
Além disso,
o enterramento das adutoras reduz riscos de contaminação, protege a infraestrutura de tempestades de areia e ajuda a manter a pressão necessária para o transporte em longas distâncias.
Ainda assim, a implantação do sistema exigiu intervenções complexas, como escavações profundas, perfuração de terrenos rochosos e, em alguns trechos, o uso de explosões controladas para atravessar maciços montanhosos.
Dessalinização em escala industrial
A água que percorre essa rede não chega diretamente do mar às torneiras.
Antes disso, passa por usinas de dessalinização, responsáveis por remover sais e outras impurezas.
A Arábia Saudita é hoje
um dos maiores produtores globais de água dessalinizada, segundo dados de organismos internacionais e registros do setor.
O Guinness World Records reconhece a Saline Water Conversion Corporation como
a maior empresa de dessalinização do mundo em volume operacional.
Entre os complexos mais citados está
Ras Al Khair, na costa do Golfo Pérsico, com
capacidade diária verificada de 1.036.000 metros cúbicos.
Já o recorde de maior capacidade instalada em um único complexo é atribuído a
Shoaiba, no Mar Vermelho, com
quase 3 milhões de metros cúbicos por dia, conforme verificação de dezembro de 2023.
Analistas do setor apontam que
a dessalinização envolve custos elevados e alto consumo de energia.
Outro ponto recorrente em estudos ambientais é
o descarte da salmoura, resíduo altamente concentrado em sal, que precisa ser gerenciado para reduzir impactos sobre ecossistemas marinhos.
No âmbito da Saudi Green Initiative, o país anunciou o objetivo de
plantar 10 bilhões de árvores ao longo das próximas décadas e de ampliar áreas protegidas.
A meta declarada é alcançar
cerca de 30% do território sob algum regime de proteção.
Segundo documentos oficiais, o plano prevê a
reabilitação de aproximadamente 74 milhões de hectares.
Autoridades afirmam que o aumento da cobertura vegetal pode contribuir para reduzir poeira, melhorar a qualidade do ar e mitigar ilhas de calor em áreas urbanas.
Pesquisadores, no entanto, ressaltam que
a efetividade dessas ações depende de fatores como espécies utilizadas, disponibilidade de água, sobrevivência das mudas e monitoramento contínuo.
Ao integrar barragens, aquíferos, dessalinização e uma extensa rede de transmissão, a Arábia Saudita aposta em soluções de engenharia para garantir água onde ela não ocorre naturalmente.
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