Imagine um mundo onde qualquer frase que não possa ser testada em laboratório ou observada fisicamente seja considerada não apenas falsa, mas sem sentido. "Deus existe", "a alma é imortal" ou "o amor é a força motriz do universo" seriam encaradas como ruído, comparáveis a um balbuciar incoerente.
?Este foi o projeto ambicioso do Positivismo Lógico. Nascido com uma tendência unificadora da linguagem da ciência e impulsionado por publicações como a Enciclopédia Internacional da Ciência Unificada, este movimento buscou limpar o conhecimento humano de toda a "sujeira" metafísica. Mas, ao tentar elevar a ciência ao patamar supremo, será que os positivistas criaram, inadvertidamente, uma armadilha lógica da qual nem a própria ciência consegue escapar?
Para compreender o movimento, devemos suspender nossos julgamentos prévios e observar a sua ferramenta principal: o Princípio da Verificabilidade.
?No seio do movimento positivista, reinava uma reverência absoluta pela ciência e um desprezo pela metafísica. Para operacionalizar isso, estabeleceram que o significado de uma proposição reside inteiramente na possibilidade de sua verificação empírica.
?Em termos simples:
?Se eu digo "Há uma mesa neste quarto", isso tem sentido porque posso criar um procedimento para ver, tocar e medir a mesa.
?Se eu digo "O Nada nadifica", isso é descartado como non-sense (sem sentido), pois não há experimento concebível para verificar o "Nada".
?A história do movimento gira, de fato, em torno das discussões sobre o significado e as condições desse princípio.
O princípio da verificabilidade tem uma utilidade inegável: ele age como uma "lâmina" que corta o obscurantismo. Ele obriga o pensador a ser claro, preciso e a ancorar suas ideias na realidade observável. Isso impulsionou a clareza na linguagem científica e ajudou a separar a ciência da superstição.
?No entanto, Bertrand Russell, com sua agudeza lógica, expõe os "calcanhares de Aquiles" dessa doutrina, demonstrando que o remédio pode ser tão nocivo quanto a doença. Russell levanta duas refutações fatais baseadas na lógica interna do próprio positivismo:
?A) A Regressão Infinita de Significados
A primeira crítica ataca a própria definição de verificação. Suponha que encontramos um método para verificar uma proposição. Para que esse método seja válido, precisamos fazer uma descrição do procedimento.
O problema surge quando perguntamos: qual é o significado dessa descrição?
Para que a descrição tenha sentido (segundo a regra positivista), ela também precisa ser verificada. Isso exige uma nova descrição, que por sua vez exige outra verificação. Isso conduz de imediato a uma regressão infinita, a menos que admitamos que, em algum ponto, o significado simplesmente "salta aos olhos" sem verificação — o que destruiria o princípio original.
?B) A Autorefutação (O Paradoxo do Cético)
A segunda dificuldade é ainda mais profunda. O positivismo rejeita toda especulação filosófica como "palavrório inútil".
Porém, a própria Teoria da Verificabilidade é, em si, uma doutrina filosófica.
O princípio "só é verdadeiro o que é empírico" não é, ele mesmo, algo empírico. Não se pode colocar o "Princípio da Verificabilidade" num tubo de ensaio.
Schlick tentou argumentar que o princípio era apenas um reflexo do comportamento humano, mas Russell rebate: mesmo afirmar isso é assumir uma posição filosófica, algo que todos concordam não ser uma declaração da ciência empírica.
A análise de Russell nos leva a uma síntese cautelosa. O Princípio da Verificabilidade é uma ferramenta poderosa para a limpeza conceptual, mas torna-se autodestrutivo quando elevado a dogma absoluto.
?Se levado ao extremo, o positivismo não apenas mata a filosofia, mas sufoca a própria ciência que tenta proteger. A ciência avança muitas vezes através de hipóteses que, no seu nascimento, não são imediatamente verificáveis (como foi a teoria atômica ou a relatividade geral em seus primórdios). Ao proibir o pensamento especulativo, o positivismo corre o risco de cortar as asas da imaginação científica, transformando a ciência num catálogo estéril de fatos presentes, incapaz de sonhar com as descobertas futuras. A lição que fica é que a ciência precisa da liberdade especulativa da filosofia para saber para onde olhar, antes de poder verificar o que vê.