Hoje faz uma semana que sofri um acidente idiota por pura burrice minha, mas hoje estou muito feliz, apesar de tudo, pois estou me recuperando bem, grato pela vida.
No domingo, dia 4, véspera do acidente, eu evacuei fezes com sangue. A princípio não me preocupei: era domingo, estava me sentindo bem, fiz uma pesquisa rápida e entendi que tinha feito fezes duras. Era sangue vermelho vivo, principalmente no papel higiênico. Tive um domingo normal, fiz corrida e estava tudo bem. Nem contei para minha esposa para não preocupar ela.
Na segunda, dia 5 (dia do acidente), minha esposa saiu com as crianças para visitar os pais dela. Fiquei sozinho em casa, decidi procurar um médico especialista para marcar uma consulta e caí na burrice de assistir a um vídeo na internet desses médicos sensacionalistas que falava sobre câncer. O vídeo me deixou impressionado e eu fechei ele. Minha pressão baixou um pouco e, ao invés de ficar quieto, não fazer nada e esperar passar, eu me levantei para ir na cozinha beber uma água, colocar um sal na boca... mas não consegui chegar na cozinha. Tive um desmaio, caí de cabeça, na parte frontal, e acordei com a cara toda amassada, dentes da frente quebrados, tentando entender o que tinha acontecido.
Me levantei, olhei no espelho e entendi que tinha desmaiado, mas não tive noção da gravidade da situação. Achei que tinha apenas quebrado os dentes (que já eram quebrados e já consertei umas 3 vezes); depois que o dente quebra, é normal, de tantos em tantos anos, precisar refazer.
Liguei para um amigo meu que é médico, cirurgião e dentista. Ele tem uma clínica em Copacabana, onde eu já fiz reparo nos dentes, mas não me atendeu de imediato. Mandei uma mensagem para ele explicando que tinha desmaiado e quebrado os dentes e em seguida liguei para minha esposa. Minha esposa estava dirigindo, no viva-voz, com nossas filhas no carro. Falei para ela me ligar de volta quando chegasse na casa dos pais dela.
Quando terminei de falar com minha esposa, o meu amigo médico me retornou a ligação e me fez algumas perguntas. Eu ainda estava meio desorientado, falei que iria me arrumar e ir para a clínica dele. Ele falou que não era para ir para a clínica dele, pois eu deveria fazer uma tomografia para saber se tinha outros danos. Perguntou se tinha alguém que poderia ir comigo, mas não tinha, eu estava sozinho em casa. Segui as orientações dele achando que seria apenas por cuidado mesmo e falei para ele que, quando saísse da emergência, iria para o consultório dele. Interfonei para a portaria, pedi para o porteiro chamar um táxi para mim, limpei um pouco de sangue que tinha no chão, coloquei uma roupa mais agasalhada e desci para pegar o táxi. Minha esposa me retornou a ligação, expliquei calmamente que eu tinha desmaiado e que estava indo para o hospital Copa D'Or por orientação do meu amigo, e falei para ela ficar tranquila, que era apenas por segurança mesmo.
No táxi, notei que meu queixo, que eu achei que tinha apenas um pequeno machucado, estava pingando sangue. Não tinha nem papel nem curativo, saí de casa despreparado achando que era bobeira, então meti a mão no meu casaco e estanquei o sangue com o casaco mesmo.
Quando cheguei no hospital, fui atendido de imediato. Deixei apenas minha identidade na recepção e o número da carteira do plano, e a atendente me acompanhou direto para um médico. Eu nunca tinha sido atendido assim em um hospital, sempre tinha aquela espera, triagem etc. Dessa vez não teve triagem. Cheguei no hospital e em 5 minutos já estava em uma maca com uma enfermeira limpando meus ferimentos. Eu estava tranquilo, ainda me dando conta da situação. A enfermeira, de cara, quando viu meu ferimento, falou que eu ia precisar tomar pontos. Mandei mensagem para minha esposa e meu amigo médico dizendo que já estava sendo atendido. Meu amigo me cobrou que eu deveria fazer uma tomografia. Nisso, eu comecei a notar que tinha 2 galos na cabeça, um na testa e outro na parte superior da cabeça, e que minha mandíbula estava desencaixada. Fui me dando conta de que poderia não ser algo tão simples. Em cerca de 20 minutos meu irmão chegou no hospital. Eu nem tinha avisado a ele, mas minha esposa havia ligado para ele e, a pedido dela, ele foi ficar comigo. Quando eu vi ele, me emocionei. Não estava esperando ele, comecei a chorar de emocionado. A médica que estava me atendendo me tranquilizou, fez um excelente atendimento e me encaminhou para tomografia: tomografia de crânio, cervical e abdômen. Mas, sei lá, eu ainda estava tranquilo. Saiu o resultado da TC: o cérebro estava bem, o abdômen também, mas tinha uma fratura do côndilo, um osso da mandíbula. Nesse tempo, minha esposa chegou e um médico cirurgião foi conversar comigo. Explicou que eu ia precisar passar por uma cirurgia, mas que não seria naquela noite: eu iria ficar em observação e a cirurgia seria provavelmente na quinta-feira. Fiquei internado em uma unidade semi-intensiva, e uns 5 ou 6 médicos foram conversar comigo nos 3 dias em que fiquei internado até a cirurgia, para entender a condição do desmaio: cardiologista, proctologista, médico do departamento. O proctologista me examinou, falou que eu provavelmente não tinha nada, que era para eu me focar na recuperação das fraturas e que depois marcasse de ir ao consultório dele, pois 45 é a idade de ir ao procto mesmo.
Na noite anterior à cirurgia, a equipe médica, depois de 2 dias de observação, entendeu que não tinha necessidade de eu ficar monitorado em semi-intensiva. Faço exercícios físicos regularmente, me alimento bem, estou magro, fazia com facilidade todos os exercícios que a fisioterapeuta pedia, minha pressão ficou boa em todo momento, todos os eletros deram bom. O desmaio foi puramente cagaço por um vídeo de internet e a burrice de não ficar quieto sem fazer nada. Não precisava ter passado por nada disso se não fosse a situação criada na minha cabeça por mim mesmo.
No dia da cirurgia, aquele cagaço do ***, pqp, que ansiedade desgraçada. Me acordaram 5h da manhã, tomei banho, só pensava na minha família, nas minhas filhas e em todos que dependem de mim. Transferi tudo que tinha na reserva de emergência para a conta da minha esposa e falei para ela que, se acontecesse algo comigo, era para vir pedir orientação na Bastter. Medo de morrer do porra. Dei um abraço nela, prometi para ela que eu ia voltar, ainda falei para ela: "para mim serão 5 mins, mas para você serão algumas horas". Ledo engano. Fui para o centro cirúrgico, teve algum problema na abertura do equipamento e eu fiquei umas 2 horas estacionado na maca em um quarto branco, respirando fundo para me controlar. Parecia um purgatório: médicos e enfermeiros passando e eu sem entender aquela demora. Pedi ajuda a uma pessoa que estava passando, pedi para algum médico ficar perto de mim. O anestesista, muito gente boa, falou que realmente teve um problema na esterilização da caixa de equipamento, que pensaram até em adiar a cirurgia, mas que estava chegando outra caixa e que a cirurgia iria acontecer.
***, que ansiedade animal. O anestesista falou que era normal eu ficar ansioso e me deu um calmante. Eu falei para ele: "Dr., tenho 2 filhas pequenas, tô desesperado". Ele tentou tranquilizar, mas, depois de 2 horas em uma maca em uma sala branca, eu já tinha feito todo mindfulness que existia na galáxia. Pedi para o médico pelo menos ligar para minha esposa e tranquilizar ela, pois, de acordo com a previsão, já era hora de a cirurgia ter acabado e ela ia ficar mais desesperada do que eu. Ele ligou para ela, eu falei com ela, tentei deixar ela tranquila. Ela tava mais tranquila do que eu. Finalmente entrei na sala de cirurgia, apaguei e voltei escutando "Acorda, Kauê, acabou". Era o anestesista me acordando. A cirurgia foi rápida, pouco mais de uma hora, fiquei sabendo depois lendo o documento. Ainda consegui ver o médico cirurgião saindo da sala e a equipe perguntando para qual quarto eu iria. Falaram o quarto errado, sinalizei com as mãos dizendo que não, era outro quarto, fiz o número do quarto com as mãos. Minha boca estava imobilizada, eu nem tinha entendido como. Só ficava no meu consciente agradecendo a Deus por ter sobrevivido. Me levaram para o quarto normal, minha esposa estava lá e eu continuava agradecendo. Ela me explicou que o cirurgião tinha conversado com ela e explicado tudo que aconteceu: que a cirurgia foi bem-sucedida, que ele consertou minha mandíbula, colocou uma placa de titânio no meu côndilo direito, costurou meu queixo e precisou colocar 4 parafusos e elásticos para imobilizar minha mandíbula. Eu continuava agradecendo sem parar no meu subconsciente. O maior alívio que eu havia tido até então desde o nascimento das minhas filhas.
Entrou a médica do departamento no quarto e me perguntou, de zero a dez, meu nível de dor. Dei nota 8 com os dedos. Tossia e saía catarro da minha boca. Minha esposa perguntou se isso era normal e ela falou que sim, que eu havia sido intubado. Me colocaram um porralhão de papel de um lado e um saco plástico do outro, e fui tossindo, tirando o catarro e me recompondo. A médica passou uma medicação e falou que eu ficaria bem. Naquele dia não falei, nem tentei falar uma palavra, só agradecia mentalmente. Agradecia, agradecia, agradecia. Me deram calmante, consegui relaxar, descansei bem. Tive uma noite boa. No dia seguinte era sexta, e o médico falou que poderiam me dar alta naquele dia ou eu poderia ficar mais um dia internado. Eu e minha esposa preferimos ficar mais um dia no hospital, pois lá eu estava sendo bem tratado, medicado. Agora eu tava vivo, não ia sair correndo do hospital para passar perrengue em casa. Tive um dia bom, a garganta já não doía mais, as dores controladas. O sábado amanheceu um dia bonito de sol, tive alta e saí do hospital caminhando de mãos dadas com minha esposa. Agradecia, agradecia, agradecia.
Cheguei em casa emocionado, peguei meu violão, toquei um pouco e senti um alívio imenso, uma das melhores sensações da minha vida. Chorei de emoção. Haviam passado os 5 dias de internação e eu tinha certeza de que o pior tinha passado. Ainda estava com cagaço daquele sangue nas fezes, mas por enquanto estava feliz. No lar, com minha esposa e minhas filhas, maior bênção. Um pouco apreensivo ainda, pois não tinha conseguido cagar em toda a internação. Comendo papinha feliz, mamão, suco de laranja. Hoje, segunda-feira, finalmente consegui ir ao banheiro, 8 dias depois daquele domingo. Fiz uma bosta linda, com cor linda, hidratada, sem sangue. Saí para caminhar e posso dizer: hoje é um dos dias mais felizes da minha vida. Caminhei cerca de 3 km, estou me recuperando muito bem, zero dor, sem analgésico, bem disposto. Na sexta tenho a consulta de acompanhamento com o médico cirurgião e, se tudo der certo, ele vai tirar esses parafusos no tempo certo e depois finalmente vou poder ir cuidar dos meus dentes.
Voltei aqui para agradecer pela vida. Só gratidão.
Teria sido menos burro não vendo vídeo nenhum na internet, não tendo passado por esse perrengue desnecessário, mas, assim, fazendo mesbla é que se aduba a vida.
Lição que eu já tinha visto aqui mas não apliquei: NUNCA VEJA VÍDEOS DE MÉDICOS NO YOUTUBE (A NÃO SER OS DO BASTTER).
Lição que eu não sabia e que aprendi: se sentir tonteira ou fraqueza, fique quieto, sentado ou deitado. Não ache que você consegue ir até a cozinha. Um desmaio acontece repentinamente e o estrago você só vai entender depois.