Este vai ser longo.
Há 9 meses escrevi aqui sobre a dor do luto após perder meu primeiro cachorro
Sobre vira-latas idosos, adoção e despedidas Assuntos Gerais - Bastter.comQuando começo a sentir que o luto estava bem manejado na minha mente, agora volto a escrever sobre luto pra ver se a dor ameniza um pouco.
Há quase 20 anos meu pai infartava pela primeira vez. Já havia fumado um bom tempo durante a vida mas naquela época já havia parado com o cigarro. Acredito que também já tinha diabetes. Foi o primeiro susto que ele nos deu. Mas ele era forte, tirou essa de letra.
Quando comecei a ter um salário um pouco melhor, decidi que faria um plano de saúde para ele e para minha mãe. Principalmente por ele naquela época pois ele era 11 anos mais velho que minha mãe e já tinha diabetes e questões cardíacas.
Há 11 anos ele teve uma infecção séria no joelho. Ficou 2 meses internado. Eu revezava as dormidas no hospital com minha mãe pois ele já tinha 70 anos e precisava de suporte, e seria muito pesado pra minha mãe acompanhar ele sem um descanso em casa.
Na época eu já tinha formação na área de saúde, lia o prontuário médico dele todo dia, conversava com amigos médicos sobre as condutas. Acabei me envolvendo demais, talvez mais do que o necessário. Isso me trouxe uma ansiedade por cada problema novo que aparecia eu ficar super preocupado. Talvez por entender um pouco da área de saúde eu super-dimensionava os problemas. Por outro lado me aproximou mais do meu pai e sempre que eu conseguia eu acompanhava ele nas consultas médicas.
A saúde do meu pai sempre foi tema das minhas sessões de terapia, até hoje. Aprendi que tenho muita dificuldade com perdas. Mas também aprendi a conviver bem com essa ansiedade, menos de forma patológica e mais como forma de ser uma das minhas principais formas de amar meu pai, por meio do cuidado.
Há 9 anos o coração dele começou a ficar mais fraco. Veio o marca-passo para regularizar os batimentos cardíacos. Mais uma que ele tirou de letra.
Dois anos depois veio a revascularização cardíaca. Coração já cheio de coronárias entupidas, não dava pra resolver somente com um ou dois stents, então passou por mais essa demonstrando o bom humor e a boa energia de sempre.
No hospital, internado numa enfermaria com outro vizinho, quando o vizinho teve alta e foi se despedir dele, meu pai tava no banheiro, acabou molhando o calção com água e para não parecer que era xixi colocou um paninho do hospital na frente do calção pra mascarar o molhado, parecendo uma tanguinha, fez palhaçada pra gente como sempre e foi se despedir do colega com essa "tanguinha".
Veio a pandemia. Tive receio, pois ele já tinha suas questões de saúde e talvez não aguentasse caso contraísse a doença. Isolei meus pais numa bolha, tentava acompanhar nos médicos quando dava. Fazia questão de lembrar de usar máscara nas saídas de casa. Ele ficou super paranoico, lavava as sacolas plásticas de mercado mesmo quando isso deixou de ser recomendado, mesmo quando eu falava que não precisava mais se preocupar com isso.
Fiz questão de levar meu pai pra tomar a primeira dose da vacina nessa época. Conseguiu chegar nessa data sem ter contraído a doença. Me emocionei ao vê-lo sendo vacinado. Fiz questão de registrar o momento. Ali eu imaginava que ele mais uma vez tinha superado mais um problema bem. Que eu teria mais uns anos com ele ao nosso lado.
Saúde estabilizou mais desde então. Seguia fazendo seus acompanhamentos. Até que no início do ano caiu e bateu a cabeça. Comentei por aqui que ele já tinha um quadro de sarcopenia, eu pedia para fazer mais exercícios, se movimentar mais, mas só começou a aceitar mais isso este ano, quando quase não tinha mais força muscular.
A queda gerou um hematoma que precisou de intervenção cirúrgica. Após a cirurgia a cabeça dele mudou bastante, começando a apresentar sinais de desorientação e demência.
Procurei a melhor geriatra que encontrei para ele começar a fazer acompanhamento com geriatria. Na consulta a médica disse que era raro ver filhos cuidando assim dos pais.
Geriatra confirmou quadro de demência. Após a intervenção cirúrgica provavelmente ele perdeu neurônios e já não tinha mais tanta reserva neuronal.
Mês passado eu viajaria com minha esposa para fora do país. Dentre outras coisas a viagem seria para ver algumas bandas que eu gosto muito em um festival de metal.
Umas semanas antes da viagem meu pai começou a apresentar edema em membros inferiores. Conversando com geriatra, com cardiologista, pessoal achava que era sinais de problema renal. Ninguém sugeriu urgência, somente para adiantar consulta com nefrologista.
Viajei mas pensando se seria mesmo a melhor decisão. Meu pai não tava nos seus 100%, mas eu também tava tão cansado da rotina, precisava desligar um pouco. Mesmo assim comentei que seria bom ele ir ao hospital mas sabendo que ficaria internado provavelmente, considerando todas as comorbidades que ele tinha. Ele preferiu não ir. Me despedi deles, dei um abraço apertado nele, não imaginando que eu não o abraçaria mais, mas no fundo aproveitando aquele cada momento daquele abraço.
Durante a viagem o edema piorou, atingiu outras partes do corpo. Minha mãe me liga e falo que agora não tem mais querer, que teria que internar. E agora eu estava em outro país, tentando aproveitar umas férias para descansar mas com a cabeça no meu pai.
Todo dia eu pedia notícias pra minha irmã, fazia video-chamada com eles, conversava com amigo médico, pra saber se era melhor eu antecipar minha volta. E nos 3-4 primeiros dias de internamento parecia tudo ocorrer de forma estável.
Até que veio o ecocardiograma contrastando bastante com o exame mais recente, inclusive relativamente recente. Coração dele só estava bombeando 23% do volume que deveria bombear. Insuficiência cardíaca terminal. Provavelmente infartou de forma "silenciosa", o que explicaria os edemas. Foi mandado para a UTI.
Aí decidi voltar. Passagens em valores impossíveis mas passei tudo no cartão e espero que o seguro viagem sirva para alguma coisa nessa hora. Na madrugada de domingo, dia 2, comprei a passagem. Duas horas depois estava embarcando.
Consegui chegar a tempo para o horário de visita. Acho que ele nem me reconheceu direito. Perguntei onde eu tava, ele não soube responder. Estava agitado, puxando bastante o ar, mas fiz um carinho na cabeça dele e ele relaxou mais.
Nessa primeira visita o médico pediu para conversar comigo e com minha irmã. Falou que era um quadro grave, que era pra gente se preparar pro que viesse e que seria importante minha mãe estar alinhada com isso.
Conversamos com minha mãe, ela chorou, todos choramos. Minha mãe dedicou a vida a ele, inclusive recentemente deixando de cuidar dela pra cuidar dele.
Um lado meu achava que ele ainda iria passar por mais essa, já havia passado por tantas outras. Outro lado pensava que se ele tava sofrendo, era melhor descansar.
Veio o dia 3, mais duas visitas à UTI. Na visita da tarde ele verbalizava um pouco mais. Entretanto o que ele disse pra gente foi que ele já havia morrido, que havia ido ao velório dele e que tinha chorado muito no velório. Eu dizia que ele tava vivo e ele fazendo careta pra mim como se eu estivesse teimando com ele

Até que veio o dia 4, e como diz a música "The Best of Times" do Dream Theater:
But then came the call
Our lives changed forever more
You can pray for a change
But prepare for the end
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Teve uma parada cardiorrespiratória. Provavelmente outro infarto. Aquele mesmo coração que há 20 anos dava o primeiro susto, nos deu o último susto semana passada.
Desde que meu cachorro se foi, mesmo considerando que o período de luto passou, ainda sinto como se a vida não fosse mais a mesma, como se faltasse cor.
Agora, uma semana após mais esse baque, a vida tá mais estranha ainda.
Os almoços de fim de semana, os beijos na testa na chegada e na saída de casa, as piadas, o bom humor, tudo foi embora no dia 4 de agosto.
Já ouvi, li, vi, várias coisas sobre luto. Estou me permitindo sentir tudo mas não deixa de ser dolorido de qualquer forma.
Uma das coisas que mais me confortou foi ler amigos falando que eu era exemplo de cuidado com os pais, que ele teve sorte de me ter. Pessoas nem tão próximas assim de toda a situação comentarem isso... acho que ele se vai e eu fico com a consciência tranquila.
Sei que uma hora isso tudo vai passar, mas enquanto não passa só deixo o barco me levar. Tentando apoiar minha mãe e minha irmã como posso mas nem eu mesmo ando conseguindo me apoiar. Ainda bem que tenho uma esposa maravilhosa que mesmo eu estando presente somente de corpo, me apoia em todos os momentos difíceis.
Volto a trabalhar hoje, só olho pra tela do laptop sem conseguir produzir muita coisa. Pra não ficar parado pensando, decidi escrever este texto.
Ontem foi o primeiro dia dos pais sem ele. Espero que quem ainda tenha pais vivos aproveite o tempo com eles. A gente quer que sejam eternos mas infelizmente não são.
Terapia, etc, tá tudo em dia.
Mas tá difícil.