Estar certo sobre a coisa errada é completamente irrelevante.
Você pode ter total razão em que determinado ator político é desprezível. No fundo, sabe que se intoxicar com o noticiário e com debates intermináveis não altera em nada a realidade. Você se apega a esse hábito porque gosta dele. Ele gera euforia. Se o noticiário exibisse apenas telas brancas e relatórios burocráticos, você sequer o acompanharia. Você consome essa engrenagem porque sente um prazer secreto ao ver quem você despreza fazendo exatamente aquilo que você desaprova. A indignação vicia.
O problema é que isso afeta o seu cotidiano. Você adora flagrar alguém poluindo a rua, ignorando a coleta seletiva, furando a fila, fechando seu carro no trânsito ou comendo carne. Cada desvio alheio serve de combustível para fazer você se sentir superior, lúcido, colocado no papel de juiz do mundo.
O problema é que uma mente viciada em julgar jamais encontrará paz simplesmente porque nunca esteve à procura dela. O que ela persegue é a euforia barata da superioridade moral. A garantia de que você apoia o lado correto. Só que esse 'lado correto' é uma invenção sua. É o fetiche moral que você fabricou para usar como régua nos outros.
Por isso, viver de acordo com os próprios valores já não basta. Você repete a si mesmo que gostaria de ver o mundo inteiro agindo como você (e continua intervindo na vida alheia, mesmo que em seus pensamentos), mas isso não passa de autoengano. Na verdade, esse seria o seu pior pesadelo. Se todos se tornassem o reflexo do comportamento perfeito, quem restaria para alimentar o seu pedestal?