Em primeiro lugar, para os obcecados por subscrição, se já não fazia diferença antes agora é pior, dá prejuízo e não faz o menor sentido.
Tem chamado atenção a quantidade de FIIs fazendo novas emissões por um preço acima da cotação de mercado. À primeira vista parece absurdo: se a cota está a R$ 80 na Bolsa, por que alguém pagaria R$ 100 na subscrição?
Uma das razões é que muitas emissões são precificadas próximas ao valor patrimonial da cota, e não ao preço de mercado. Assim, o fundo pode ter valor patrimonial de R$ 100, emitir perto de R$ 100 e, ao mesmo tempo, negociar na Bolsa a R$ 80.
Dois exemplos recentes mostram bem isso. O
TRXF11 teve emissão em torno de
R$ 94 por cota, enquanto a cota chegou a negociar perto de
R$ 73 no mercado, uma diferença próxima de 30%. Na preferência dos cotistas, a adesão foi mínima: de mais de 53 milhões de cotas oferecidas, foram subscritas pouco mais de 425 mil. O caso é especialmente interessante porque parte das aquisições previstas pelo fundo pode ser paga com as próprias cotas da emissão. Ou seja, o vendedor de um imóvel pode receber cotas novas como parte do pagamento, por meio da compensação do crédito que tem contra o fundo. Ele não está simplesmente escolhendo comprar uma cota a R$ 94 que poderia comprar a R$ 73 na Bolsa; está negociando o preço do imóvel e a forma de pagamento como um pacote único. Já o
TVRI11 lançou emissão em torno de
R$ 101, praticamente alinhada ao seu valor patrimonial, enquanto a cota era negociada perto de
R$ 8687 na Bolsa, diferença de aproximadamente 17%.
Estes são apenas alguns exemplos de uma prática que tem sido comum.
Para o pequeno investidor, exercer o direito de preferência nessa situação geralmente não faz sentido. Se ele vai aportar R$ 3 mil, pode usar os mesmos R$ 3 mil para comprar mais cotas diretamente na Bolsa. O argumento de não ser diluído também é fraco: ter uma participação percentual menor em um fundo maior não significa necessariamente perda econômica. O que importa é aportar em valor, tanto faz aonde.
A pergunta mais interessante é: quem compra essas cotas acima do mercado?
Em muitos casos, os próprios cotistas quase não participam. Parte importante da emissão pode ser usada para pagar aquisições do fundo. O vendedor de um imóvel, por exemplo, pode receber cotas novas como parte do pagamento. Ele não está simplesmente escolhendo pagar R$ 100 por algo que vale R$ 80 na Bolsa. Está negociando o pacote inteiro: preço do imóvel, parcela em dinheiro, parcela em cotas e demais condições.
Os compradores quanto existem normalmente são:
1. Cotista que realmente põe dinheiro:Pode existir, mas parece ser uma parcela pequena e economicamente é difícil justificar.
2. Institucional/profissional colocando dinheiro novo:precisamos examinar caso a caso. Se for simplesmente a mesma cota, sem nenhuma contrapartida, a matemática continua ruim. Mas há situações em que pode fazer sentido quando existe alguma contrapartida econômica fora do preço simples da cota. Mesmo assim normalmente com diferenças menores do que tem acontecido.
3. Vendedor de imóvel recebendo cotas e outras operações estruturadas ou compensação de crédito.O vendedor de imóvel e uma explicação interessante. Ele não está comparando apenas R$ 94 versus R$ 73; está negociando
o preço do imóvel + forma de pagamento + cotas recebidas.
Por isso, algumas emissões conseguem existir mesmo muito acima da cotação sem que haja uma multidão de investidores pagando voluntariamente mais caro pela mesma cota. A emissão pode estar servindo também como instrumento para financiar aquisições, compensar créditos e estruturar operações com vendedores de ativos. E se mesmo assim alguns comprarem ou por serem desavisados ou seja lá pelo que for, ótimo para o fundo. A subscrição pública é apenas o troco.
Para o pequeno investidor, porém, a conta continua simples: se a mesma cota está disponível na Bolsa por um preço significativamente menor, não há razão econômica evidente para pagar mais apenas porque recebeu um direito de preferência. Na verdade nunca há razão para exercer subscrição alguma nem vantagem especial. Pode subscrever se for simples, não tem problema, mas não pode ficar obcecado com isso, ainda mais quando o preço é acima do mercado.
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