Alguns textos arrancam um pedaço da gente. Esse é um deles.
Ele está ruminando em mim desde o dia 17/09, quando eu recebi uma ligação às 4:18 da madrugada da cuidadora me contando que meu pai havia descansado.
Não houve muito tempo, desde então, para sentar e escrever sobre isso. Aquela manhã foi intensa: hospital, funerária, cartório, velório... Aquela madrugada, eu estava na casa dos meus pais, porque o plano de saúde havia liberado o homecare e era necessário instalar o oxigênio, pois ele seria transferido pra casa naquele fim de semana.
Desde então, eu tenho reorganizado a minha vida e a da minha mãe. É muita burocracia numa hora dessas e, apesar de toda ajuda da minha rede, tem coisas que só eu ou minha mãe podemos fazer e eu faço questão de assumir pra tornar o luto dela um pouco menos dolorido.
A última visita que fiz ao meu pai no hospital, na noite anterior, às 21:00, eu coloquei uma música no ouvido dele que fez a cuidadora se emocionar. Depois, ouvi a música que sempre ouvi pensando nele e que sempre fez meu filhote de 2 anos me dizer: "é a música do vovô, papai".
E foi a primeira vez que, em silêncio, e vendo a minha mãe ao lado dele no leito do hospital, eu pensei que "se você acha que é melhor descansar, Pai, vá, que tudo vai ficar bem". O meu pai estava comendo por sonda, urinava em fraldas, tinha duas escaras que lhe davam muita dor, precisava de cuidadora 24 horas e dificilmente voltaria a andar, depois de quase dois meses em internação hospitalar.
A gente, que ama, quer sempre adiar as despedidas, mas o meu pai, que sempre foi um conciliador, talvez soubesse, que ficar conosco mais tempo ia me levar em breve para um lugar parecido com o da minha mãe, uma fortaleza que não queria sair do seu lado, mas que também adoeceu no processo, passando quatro dias na UTI semanas antes. Talvez eu tenha aprendido com ela, que por quem amamos a gente se sacrifíica, e eu estava disposto a cuidar deles até a última gota das minhas forças exaurirem.
Quinta retrasada, a minha sessão de terapia foi sobre isso. Sobre o meu encerramento de ciclo com meu pai. E eu consegui elaborar, com ajuda da terapeuta, que este descanso do meu pai, também foi um descanso pra minha mãe e pra mim. Mas que, apesar de agora eu ver que a ida dele significa seguir em frente, em nenhum segundo eu quis que ele se fosse embora. Porque o amor tem esse apego, da gente querer a presença física, mesmo quando a pessoa já não tem mais qualidade de vida. Só que o meu pai ainda vive em mim e em tantas coisas à minha volta.
Deu tempo pra tudo, pai. Deu tempo pra você e minha mãe viverem uma linda história de amor. Deu tempo de viajarmos juntos pra lugares incríveis. Deu tempo para trabalharmos juntos. Deu tempo pra gente se desentender e fazer as pazes. Deu tempo para eu te matar como Pai ideal e te amar pelo Pai que você era, com defeitos, mas com as tantas qualidades que me fizeram sempre te amar incondicionalemnte. Deu tempo pra eu ver você ser homeageado. Deu tempo pra você me ver sendo homeageado e te dando orgulho. Deu tempo de você ver e poder brincar com o meu primeiro filho.
Só não deu tempo pra você saber que, um dia depois da sua partida, a gente descobriu que o teu próximo netinho será um outro menino. Ele nunca vai te conhecer neste plano, mas eu irei contar e ele as histórias que você me contou e que eu adorava ouvir.
Obrigado por tudo, pai. Estou tentando cumprir tudo que te prometi. Estamos cuidando da minha mãe. Ela já foi matriculada no pilates e está fazendo terapia pra seguir em frente da melhor maneira possível. Já marcamos uma viagem em família juntos e ela já está super animada em viajar com o netinho e a norinha grávida.
Descanse, que tudo vai ficar bem. Te amo.