
Entre os séculos XVI e XIX, a Rússia realizou uma das maiores expansões territoriais da história. O processo teve início no reinado de Ivan IV (Ivan, o Terrível), quando, em 1582, a expedição do cossaco Yermak Timofeyevich, integrante dos cossacos, comunidades militares de fronteira a serviço do Estado russo, derrotou o Canato da Sibéria, um Estado muçulmano fundado por povos túrquicos, principalmente tártaros siberianos, que surgiu após a fragmentação da Horda Dourada e dominava parte da Sibéria Ocidental. Essa vitória marcou o início da incorporação da vasta Sibéria ao Estado russo. Em 1586 foi fundada Tiumen, considerada a primeira cidade russa permanente na Sibéria. Em 1604 foi fundada Tomsk. Em 1628 foi fundada Krasnoiarsk. Em 1632 foi fundada Iakutsk. Em 1661 foi fundada Irkutsk. Essas cidades tornaram-se importantes centros administrativos, militares e comerciais, consolidando o avanço russo para o leste. Nas décadas seguintes, sob os primeiros czares da Dinastia Romanov, exploradores, comerciantes e cossacos avançaram rapidamente pelos grandes rios siberianos, fundando fortalezas e povoados que garantiram o controle do território.
Em meados do século XVII, os russos já haviam alcançado o Oceano Pacífico, realizando uma das mais extraordinárias expansões terrestres da história. Em 1639, exploradores russos chegaram pela primeira vez à costa do Pacífico. Em apenas cerca de sessenta anos após a conquista do Canato da Sibéria, a Rússia atravessou praticamente todo o norte da Ásia, um dos maiores feitos da história das expansões territoriais realizadas por via terrestre. Diferentemente das potências marítimas europeias, que construíram impérios ultramarinos, a Rússia expandiu-se de forma contínua por terra, integrando gradualmente os novos territórios ao seu Estado. Essa expansão conferiu ao país uma extraordinária profundidade territorial, fator que viria a desempenhar papel decisivo em sua segurança, em seu desenvolvimento econômico e em sua projeção como potência continental.
Outro marco da consolidação geopolítica do Império Russo ocorreu durante o reinado de Catarina II (Catarina, a Grande). Após a vitória sobre o Império Otomano, a Rússia anexou a Crimeia em 1783, incorporando definitivamente a estratégica cidade de Sevastopol, fundada no mesmo ano como base da Frota do Mar Negro. A posse da Crimeia garantiu à Rússia um porto de águas profundas permanentemente operacional no Mar Negro, reforçando sua presença militar e naval na região e ampliando seu acesso ao Mar Mediterrâneo por meio do Estreito de Bósforo, do Mar de Mármara e do Estreito de Dardanelos. Desde então, Sevastopol consolidou-se como um dos principais centros navais da Rússia e um dos pilares de sua projeção estratégica no sul da Europa e no Oriente Médio.
A consolidação do Extremo Oriente ocorreu principalmente no século XIX, durante os reinados de Nicolau I e, sobretudo, de Alexandre II. Aproveitando o enfraquecimento da Dinastia Qing durante as Guerras do Ópio, a Rússia obteve vastos territórios por meio do Tratado de Aigun e da Convenção de Pequim. No ano de 1860 foi fundada Vladivostok, que se transformaria no principal porto russo no Pacífico e na grande "janela da Rússia para o Extremo Oriente", desempenhando papel semelhante ao de São Petersburgo em relação à Europa. A fundação de Vladivostok marcou a consolidação da presença russa na costa do Pacífico e reforçou sua capacidade de projeção política, econômica e militar sobre o nordeste da Ásia.
A integração definitiva dessa imensa região foi alcançada durante o reinado de Nicolau II, com a construção da Ferrovia Transiberiana entre 1891 e 1916. Com cerca de 9.300 km de extensão, a ferrovia ligou Moscou a Vladivostok, estimulando o povoamento, o desenvolvimento da agricultura, da mineração, da indústria e do comércio, além de permitir o rápido deslocamento de pessoas e tropas. A Transiberiana tornou-se o principal eixo de integração territorial da Rússia, consolidando a ocupação da Sibéria e do Extremo Oriente e permitindo sua plena incorporação econômica, demográfica e estratégica ao restante do país. Considerada uma das maiores obras de engenharia de sua época, a ferrovia transformou-se no principal elo entre a Rússia europeia e seus territórios asiáticos, desempenhando papel fundamental na integração nacional e no fortalecimento da unidade territorial do país.
Assim como a marcha para o oeste moldou os Estados Unidos, a expansão russa para o leste transformou um vasto território pouco povoado em parte integrante do Estado russo. O resultado foi a formação do maior país do mundo, estendendo-se do Mar Báltico ao Oceano Pacífico e consolidando a Rússia como uma potência simultaneamente europeia e asiática, com projeção estratégica tanto para a Europa quanto para a Ásia-Pacífico. A combinação de sua enorme extensão territorial, de sua diversidade geográfica e da integração promovida ao longo de séculos conferiu à Rússia uma posição singular entre as grandes potências mundiais.
Essa extraordinária expansão territorial fez da Rússia uma potência simultaneamente europeia e asiática. No extremo oriental, o país passou a fazer fronteira terrestre com a China e a Coreia do Norte, além de estar separado dos Estados Unidos por apenas 3,8 km entre a ilha Grande Diomedes, pertencente à Rússia, e a ilha Pequena Diomedes, pertencente aos Estados Unidos, situadas no Estreito de Bering, cuja menor largura é de aproximadamente 85 km. No extremo ocidental, por meio do enclave de Kaliningrado, às margens do Mar Báltico, a Rússia mantém uma posição estratégica na Europa, fazendo fronteira com a Polônia e a Lituânia.
A origem desse enclave remonta ao período posterior à Segunda Guerra Mundial. Kaliningrado corresponde à antiga cidade alemã de Königsberg, capital da Prússia Oriental e berço do filósofo Immanuel Kant. Durante séculos, Königsberg foi um importante centro político, comercial e cultural da Prússia. Ao final da Segunda Guerra Mundial, a cidade foi conquistada pelo Exército Soviético em abril de 1945. Posteriormente, conforme as decisões tomadas na Conferência de Potsdam, a parte norte da Prússia Oriental foi colocada sob administração soviética. Em 1946, a cidade foi rebatizada como Kaliningrado, incorporada à União Soviética e repovoada majoritariamente por cidadãos soviéticos, após a expulsão da maior parte da população alemã. Desde a dissolução da União Soviética, em 1991, Kaliningrado permanece como um enclave da Federação Russa entre a Polônia e a Lituânia, desempenhando importante papel estratégico e militar no Mar Báltico. Atualmente, abriga uma das principais bases navais e militares russas na região do Mar Báltico, além de sediar importantes meios navais, aéreos e sistemas de defesa, constituindo um dos pilares da estratégia defensiva e naval da Federação Russa.
Essa presença em ambos os extremos do continente eurasiático evidencia a singular dimensão geográfica e a importância estratégica da Federação Russa. Como a expansão territorial da Rússia na Ásia estendeu-se do século XVI ao século XIX, mapas temáticos desse período normalmente destacam apenas os territórios asiáticos incorporados ao Império Russo. Por essa razão, o enclave de Kaliningrado, embora mencionado neste texto em razão de sua importância estratégica para a Rússia contemporânea, não aparece representado nesses mapas, por situar-se na Europa.
Da mesma forma, São Petersburgo, fundada por Pedro I (Pedro, o Grande) em 1703, ocupa uma posição estratégica às margens do Mar Báltico, constituindo a principal porta de entrada da Rússia para a Europa. Concebida como a "janela da Rússia para a Europa", tornou-se um dos mais importantes centros políticos, culturais, econômicos e navais do país, complementando o papel desempenhado por Vladivostok como a "janela da Rússia para o Extremo Oriente". Kaliningrado consolidou-se como o principal bastião militar russo no Mar Báltico, enquanto Sevastopol permaneceu como a base histórica da Frota do Mar Negro. Juntas, São Petersburgo, Kaliningrado, Sevastopol e Vladivostok representam os quatro principais pilares da projeção geopolítica marítima da Rússia. São Petersburgo projeta a presença russa sobre o Mar Báltico e o norte da Europa. Kaliningrado assegura a presença estratégica russa no centro do Mar Báltico. Sevastopol projeta seu poder sobre o Mar Negro e o Mar Mediterrâneo. Vladivostok conecta a Rússia ao Oceano Pacífico e ao nordeste da Ásia, além de servir como base da Frota do Pacífico. Em conjunto, essas quatro cidades refletem a condição singular da Rússia como a maior potência territorial do planeta e evidenciam sua capacidade de exercer influência simultaneamente sobre diferentes regiões estratégicas da Eurásia.
Essa extraordinária trajetória histórica permitiu à Rússia projetar influência sobre três grandes espaços marítimos, o Mar Báltico, o Mar Negro e o Oceano Pacífico, além de estabelecer presença simultânea na Europa, na Ásia e na vizinhança imediata da América do Norte, característica geopolítica singular entre as grandes potências mundiais. Poucos Estados ao longo da história exerceram influência estratégica simultânea sobre a Europa, a Ásia e a vizinhança imediata da América do Norte, circunstância que ajuda a explicar a singular posição geopolítica da Rússia no cenário internacional. A formação desse vasto espaço territorial, construída ao longo de mais de quatro séculos, transformou a Rússia em um Estado de dimensões continentais, dotado de uma profundidade estratégica incomum e de uma capacidade singular de projetar influência sobre diferentes teatros geopolíticos, característica que continua a moldar seu papel no sistema internacional do século XXI. A extensão territorial, a diversidade de ambientes naturais e a distribuição de seus principais centros estratégicos ao longo de dois continentes fazem da Rússia um dos exemplos mais expressivos de continuidade territorial e profundidade geopolítica da história moderna.