No início de 2023 eu e minha esposa, que na época tínhamos 7 anos de casado decidimos que estava na hora de começar as tentativas de ter filhos. Ela, tinha 32 para 33 anos, já havia concluído os estudos, residências, especializações, títulos. Estava crescendo nos trabalhos (é médica PJ) e eu, 33 para 34 anos sentia que era chegado o momento de dar esse passo a mais.
Por volta de abril, ela reclamou de um desconforto e foi fazer uns exames, foi quando identificou que estava com o cisto de aproximadamente 10cm no ovário. A indicação era a cirurgia para a retirada do cisto. Essa cirurgia, embora simples, trazia consigo o risco de não preservação do ovário. A cirurgia foi feita em meados de 2023. Tudo certo, novos exames mostraram que o cisto fora retirado.
No início do ano passado (2024), superada a questão do cisto decidimos que era hora de começar a tentar engravidar.
Em março, após alguns exames tivemos uma notícia que nos deixou apreensivos, a preservação do ovário que possuía o cisto não foi a esperada, e minha esposa só tinha um. Para piorar um dos exames mostrou baixa reserva ovariana, o que pode dificultar a gravidez espontânea.
Ficamos bastante tristes, porque queríamos tentar por maneiras naturais, mas não fechamos as portas para outros métodos, como FIV, por exemplo.
Em maio de 2024, as vésperas do meu aniversário, após um atraso e alguns enjoos, fizemos o teste de farmácia e veio o positivo. Ela estava grávida de maneira espontânea, mesmo com baixa reserva ovariana.
Ficamos extremamente felizes, estávamos realizando nosso sonho e nosso filho estava a caminho.
No início da gravidez, as mulheres fazem um exame de sangue para confirmar a gravidez, o BETA HCG. Esse exame deve dobrar a cada 2 dias, nas primeiras semanas. Durante a realização desses exames, percebemos que embora positivo e crescendo, as taxas não dobravam, cresciam, mas não dobravam. Com 6 semanas durante a realização da ultra foi visualizado o saco gestacional, mas o embrião, estava pequeno, segundo o laudo.
Sabíamos que algo não estava certo, e repetimos o exame 2 semanas depois em outro local, com uma profissional mais qualificada. Nesse momento, a médica identificou que embora houvesse saco gestacional, não havia embrião. Tratava-se de uma gravidez anembrionária.
Essa situação ocorre quando se forma o saco gestacional, os exames vem positivos, mas na divisão celular, há algum erro que o embrião não se forma, ou não vinga.
Foi um período bastante difícil e de bastante frustração e incertezas.
Para piorar, quando ocorre esse tipo de aborto, há 3 possibilidades. O corpo identifica que a gravidez é não evolutiva e espontaneamente expulsa o saco gestacional. Ou podem ser feitos 2 procedimentos para retirada do material do útero. Uma AMIU (Aspiração Manual Intra Uterina) ou Curetagem, que é um procedimento um pouco mais invasivo.
A orientação da médica foi esperar algumas semanas para ver se o corpo expulsava ou se seria necessária a intervenção.
Passado esse tempo, não houve grandes evoluções e foi realizada a AMIU em meados de 2024. Isso significava que precisávamos esperar mais um tempo para voltarmos a tentar, a questão era que minha esposa começou a entrar numa faixa etária dificultosa para engravidar, ainda havia a questão da baixa reserva ovariana e a frustração da perda.
Foram meses de muita conversa, esperança, medo e fé.
Queríamos tentar de maneira natural, mas mantínhamos aberta a possibilidade da FIV, embora não fosse nossa preferência, e se necessário fosse, partiríamos para a adoção.
Éramos bem tranquilos com isso.
No último trimestre de 2024, fomos liberados a tentar novamente a gravidez de forma espontânea. Ao repetir os exames, uma surpresa, a reserva ovariana havia aumentado a um nível aceitável, não era mais considerada baixa, e com essa informação, ganhamos fôlego extra, afinal não era tão ruim quanto parecia.
Iniciadas as tentativas, todo mês ficávamos na expectativa, observávamos, atrasos, enjoos, fazíamos testes de farmácia e tudo o mais esperando pelo positivo.
Na primeira semana de 2025, uma surpresa. Teste de farmácia positivo, felicidade, esperança, e ao mesmo tempo medo e receio. Nos dias seguintes porém, nova frustração, o BETA insistia em não dobrar e alguns dias depois sangramento, diagnóstico: Gravidez química. Isso era janeiro, e achávamos que a nossa opção era partir para a FIV. Afinal, foram 2 gravidez frustradas, de fato 2 perdas.
As semanas seguintes foram ainda mais complicadas e períodos de questionamento. A nossa volta, amigos, familiares, colegas de trabalho engravidando e a gente que tanto queria não conseguia. Não entendíamos o que poderíamos fazer de diferente.
Começamos então a me investigar, fiz exames, fui a especialistas e tudo comigo parecia estar OK. Com minha esposa também. Foi então um dos médicos me indicou uns suplementos, segundo ele, o meu espermograma mostrou que a quantidade era boa, mas a qualidade poderia ser melhor.
Tomei a suplementação e esperamos.
Já era fevereiro de 2025, e em março, estaríamos de férias, combinamos que iríamos viajar, distrair e pensar nisso somente após as férias, para então decidir o que faríamos.
Passou o carnaval, e entrou março e junto com ele as férias. Estávamos com 2 viagens programadas, uma curta de alguns dias pelo interior do estado, e outra para o caribe de uma semana.
Desencanamos e fomos "viver a vida" para depois com a cabeça mais fresca, decidir o que fazer.
Durante essa primeira viagem, pelo interior, minha esposa me confessou já no último dia de viagem que: "Se não descer hoje, estará atrasado, mas vamos aguardar com calma."
Eu, como sou muito ansioso, voltei pelo caminho inteiro, ja pensando em comprar teste, perguntando como ela estava e etc. E ela sempre dizendo que estava cedo, coisa e tal.
Chegamos, fui direto na farmácia e comprei o teste. Feito o teste, deu uma linha bem clarinha, que dava sinais de ser um possível positivo. (quem ja fez esses testes, sabe que a depender do tempo, se estiver muito no início pode dar mais claro no teste da farmácia).
Corremos imediatamente para o laboratório, era uma segunda feira, e viajaríamos pro Caribe, no Domingo.
Fizemos o exame, e o resultado foi o seguinte: 24 >>> inconclusivo.
Pensamos que poderia ser um positivo, e por estar muito no início, dar essa taxa.
quarta-feira, exame repetido...resultado >>> 98
Sexta-feira, novo exame...resultado>>> 220
Domingo, antes do embarque outro exame...resultado >>> 500
Enfim, o beta dobrava, enfim parecia ter dado certo.
Viagem feita, uma semana no Caribe, com alegria, felicidade e esperança.
Quando retornamos, era a hora da verdade. Veio a ultra e com ela a esperança de que dessa vez, tudo estivesse perfeito.
E foi nesse dia, que ouvimos o pulsar de um coração, ali tivemos a certeza que nosso milagre estava a caminho.
Dali em diante vieram a revelação, a comunicação a família, aos amigos, todo o processo até a chegada do nosso menino, nosso milagre.
Meu filho chegou no dia 03/11, após 2 perdas gestacionais e bastante frustração.
Nasceu com 37 semanas, e 3 dias.
Ainda passou 1 semana na UTI Neonatal, mas está bem, saudável, crescendo e nos ensinando e desafiando dia após dia a sermos pais melhores, pessoas melhores.
Ele nos deu a certeza de que devemos nos preparar, acreditar, tentar, insistir, tentar de novo e de novo. Até o dia em que suas preces são atendidas, seu sonho se realiza, e você se completa.
Neste ano em que celebramos 10 anos de casamento no mês que vem, somos agraciados com a vida do nosso filho. É impossível não reconhecer o quanto esse momento é cercado pela mão de Deus.
Agradeço à minha esposa, mulher forte e cheia de fé, que enfrentou cada etapa com coragem, ternura e entrega.
E da minha parte… busquei ser abrigo. Mesmo nos momentos em que o coração doía, escolhi confiar. Fiz do silêncio uma prece, do abraço um apoio, e da fé um caminho. Tentei ser força quando tudo parecia desmoronar. Estive ao lado dela em cada consulta, em cada oração, em cada lágrima. E nunca deixei de acreditar que Deus estava escrevendo a nossa história — mesmo quando tudo em volta parecia dizer o contrário.
Ao meu filho, e a minha esposa, os maiores presentes da minha vida, a quem eu dedico tudo, por quem eu serei o melhor que posso.