Publicado em 1951"Assim, a economia “intelectual” concebida para produzir essa felicidade é um fantástico círculo vicioso que ou fabrica cada vez mais prazeres ou entra em colapso — proporcionando uma constante estimulação dos ouvidos, olhos e terminações nervosas com fluxos incessantes de ruído quase inescapável e distrações visuais.
O “sujeito” perfeito para os objetivos dessa economia é a pessoa que coça os ouvidos continuamente com o rádio, de preferência um modelo portátil que possa acompanhá-la a qualquer hora e em qualquer lugar. Seus olhos percorrem incessantemente a tela da televisão, o jornal e a revista, mantendo-o em uma espécie de orgasmo sem fim através de uma série de vislumbres tentadores de automóveis brilhantes, corpos femininos reluzentes e outras superfícies sensuais, intercalados com tais restauradores da sensibilidade — tratamentos de choque."
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Publicado entre 1914-1935
"Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza."
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Eu até posso concordar que as redes sociais atacam algumas sensibilidades humanas de forma mais eficiente do que outros mecanismos do passado. Com isso eu não tenho nenhum problema.
Só não se enganem, muito antes das redes sociais as pessoas sofriam de problemas sociais.
Aprender a lidar com as redes socias ou removê-las da sua vida é parte do problema, só não se enganem com o inimigo necessário.
Frequentemente, inventamos uma cruzada contra um inimigo mágico - mesmo que ele tenha alguma realidade - para nos proteger nosso próprio ego. Para justificar o que fazemos, e acima de tudo, não assumir os caminhos de mudanças necessários.
É gostoso achar que todos os problemas se resolvem fora da gente, e que nós seríamos perfeitos se não fosse o vilão malvado que nos faz cometer erros.
Se de alguma forma os textos acima ressoam alguma coisa que parece a nossa realidade de hoje, saibam, tirar as redes sociais vai no máximo te colocar no "passado" em que esses textos foram escritos.
Ela pode fazer parte do problema de hoje, mas nem de longe o problema se fecha nas redes sociais.
São problemas antigos em novos mecanismos. Você pode achar que a sua batalha é mais difícil que a dos outros, e que no passado era mais fácil e que o presente se encaminha para um futuro trágico.
Que pode até ser verdade, só que ninguém pode ter certeza disso.
O que é claro para mim é a dor que eles descrevem ser a mesma que as pessoas me descrevem tanto aqui quanto no consultório.
Ainda que não tenhamos feito muito na direção de melhorar os problemas de mundo, andamos muito na direção de melhorar nossa relação com essas situações.
Eu já fiz dezenas de chats, bodes e textos aqui na bastter.com sobre esse assunto.
Se você não gosta do meu conteúdo, procure outro. Procure o que for melhor para você.
O melhor conteúdo do mundo não vai servir de nada para quem entregar integralmente a responsabilidade da própria vida para uma narrativa de um inimigo que nem existe.
Enquanto o discurso for sobre dopamina, redes sociais ou qualquer coisa que entregue a nossa responsabilidade sobre isso, continuaremos sendo a criança que justifica o erro que cometeu com o erro do coleguinha.
Tirando situações de miséria, o lugar mais próximo, mais disponível e com mais possibilidade de mudança está em nós mesmos.
Se mudar a si parece impossível, que chance você de tentar mudar o mundo?