Ideologia, num sentido bem amplo e não-polêmico, é o conjunto de ideias, valores e pressupostos que cada pessoa usa para interpretar o mundo e decidir o que fazer. Ela funciona como um óculos: seleciona o que parece relevante, dá significado aos fatos e orienta escolhas. Por isso, não é algo que só um lado tem. Todo mundo tem alguma ideologia, mesmo quem diz ser neutro. A alegação de neutralidade total costuma ser apenas uma ideologia que não se reconhece como tal.
O problema começa quando ideologia vira rótulo. Muita gente usa a palavra como uma acusação automática, quase sinônimo de desonestidade ou cegueira, para desqualificar o outro sem lidar com o conteúdo do que foi dito. Isso costuma encurtar a conversa e aumentar o ruído: em vez de discutir premissas, evidências e consequências, a discussão vira um tribunal de intenções. Além disso, rotular o outro de ideológico frequentemente serve para esconder a própria ideologia, como se quem aponta o dedo estivesse fora do jogo. Não está. Ninguém está.
O ponto central é a fricção com a realidade. Ideias são úteis enquanto ajudam a descrever o que acontece e a produzir bons resultados na prática. Quando uma crença começa a bater de frente com os fatos de forma repetida, a atitude saudável é ajustar o modelo: refinar, corrigir, abandonar o que não funciona. O problema aparece quando a ideologia vira identidade e passa a ser defendida como se fosse parte do eu. Aí ela deixa de ser ferramenta e vira dogma: qualquer evidência contrária vira exceção, manipulação, caso isolado, e a pessoa sempre encontra um jeito de salvar a crença, mesmo que a realidade esteja cobrando caro.
Isso não é exclusivo de política. Em investimentos, por exemplo, é comum alguém se apaixonar por uma narrativa e ignorar sinais de que a tese não se confirmou: resultados piores do que o esperado, promessas que não viram execução, riscos que se materializam. Em saúde, pode ocorrer quando preferências pessoais substituem evidência e a pessoa passa a tratar opinião como se fosse fato. No trabalho, acontece quando métodos ineficientes se mantêm só porque sempre foi assim, mesmo com indicadores mostrando o contrário.
Uma regra prática para evitar rigidez: trate suas convicções como hipóteses, não como patrimônio emocional. Se a realidade repetir o mesmo recado, escute. Trocar de ideia quando os fatos mudam não é fraqueza; é adaptação. Ideologia é inevitável, mas pode ser flexível, revisável e orientada por evidências. No fim, a realidade é o árbitro.