Pensando sobre ideologia em outro post, creio que surgiu uma ideia que vale a pena destacar em um post individual e que, para mim, resume muita coisa útil que aprendi aqui no site: fricção com a realidade.
A gente pode ter um núcleo de valores e isso é normal, talvez até necessário para não virar folha ao vento. Mas mesmo esse núcleo é sempre vivido a partir de uma perspectiva pessoal e, quando vira ação concreta, passa por teste. A vida real mistura informações, pressões e ruído. Nada vem limpo, nada vem com manual.
Fricção de ideias entre pessoas existe, claro. Mas a fricção que mais ensina é a da ideia com a realidade. A realidade não discute, ela cobra. Ela mostra o que se sustenta e o que era só uma narrativa bem montada.
Minha história nos investimentos é cheia dessas fricções. No fim dos anos 2000 eu li um livro famoso defendendo Dogs of the Dow como estratégia excelente. A regra parecia elegante e simples: 10 ações, 10% em cada, todo ano gira para as top 10 em dividend yield. Eu fiquei fascinado. Só que com o tempo fui percebendo que eu estava mais apaixonado pela ideia do que atento ao que estava acontecendo de verdade.
Foi lá por meados de 2013 que eu vi algumas posições derreterem mesmo pagando dividendos. Lembro bem de duas em especial, Rossi Residencial e OIBR. Em determinado momento eu já estava tomando algo como 40%, 50%, 60% de queda nelas. Aquilo foi fricção pura: a tese estava bonita na minha cabeça, mas os fatos estavam gritando. Em 2013, depois de decidir que eu precisava estudar de verdade, eu encontrei um livro do Bastter numa prateleira de livraria da finada Saraiva e levei para casa. Ali caiu muita ficha. Eu percebi que estava fazendo absolutamente tudo errado e caminhando para o ferro grosso. Como dizia o Cazuza, tuas ideias não correspondem aos fatos. Eu vendi aquelas duas e, pouco depois, as quedas aceleraram ainda mais e o resto é história.
No fundo, fricção com a realidade é um nome bonito para o que o saudoso Cazuza cantava: "suas ideias não correspondem aos fatos". E quando você aceita isso com humildade, você melhora.
E isso foi só o começo. Muitos outros ensinamentos vieram depois, como por exemplo não ficar 100% em ações, ter reserva de emergência, pensar em diversificação de verdade, reduzir o giro e parar de procurar regra mágica que promete facilitar a vida. No fim, o que o site me ajudou a fazer foi trocar fantasia por processo.
Então fica meu agradecimento ao Bastter e ao site. Muita coisa que hoje eu considero óbvia eu só aprendi apanhando e, principalmente, revisando premissas.