Neste mês, eu lembrei-me de por que faço tantos vídeos sobre ansiedade. Não sei se é por causa da época de férias, em que o pessoal teve de focar na vida pessoal, ou se é só algum viés meu mesmo.
Seja como for, a lista foi grande. Desde reclamar das compras da esposa, aplicativos de bancos, fazer questão de expressar o incómodo de a esposa gostar da Apple, quantas bebidas pedir no restaurante, entre tantas outras.
A minha melhor resposta está neste post:
Coisas que sinto falta da corretora de banquinho. Assuntos Gerais - Bastter.comO resumo é que, isoladamente, nenhuma dessas coisas é relevante, tanto para o bem-estar quanto para algum prejuízo. Se for só isso, realmente não há nada de mais.
Quem me dera ter uma vida em que um desses hábitos fosse o meu único problema.
A explicação maior vem agora.
Eventos isolados e sem risco não têm relevância na saúde mental. Fazem parte da vida; são os pequenos pecados cotidianos de saúde que todo mundo comete.
As coisas ganham relevância quando estão associadas a outros padrões, formando um "complexo". Um complexo, por definição, é um quadro de múltiplas causas interligadas ou manifestações variadas, frequentemente de difícil diagnóstico.
Quando várias coisinhas se vão somando, formam uma teia intrincada que gera um resultado que dificilmente pode ser atribuído somente a um pedaço da teia.
Stress é um ótimo exemplo de complexo.
Excluindo situações óbvias, como acidentes de carro, dificilmente alguém vai diagnosticar uma única coisa como causa de um quadro de stress grave.
O quadro acontece com o cidadão que:
Repetidamente acorda em cima da hora para ir ao trabalho
E precisa sair correndo de casa
E fica acelerando todo mundo da família para sair logo
E tem dificuldades com o trânsito
E não sabe se organizar no trabalho ou tem uma necessidade de controle do trabalho que não existe
E tem inveja do colega que tem um carro melhor
E não gosta de se relacionar com colegas de trabalho
E está em um momento ruim no trabalho
E não sabe pedir ajuda
E não usa o horário de almoço para descansar
E sente a obrigação de conferir o saldo bancário várias vezes ao dia para validar uma segurança que nunca chega
E se culpa por não estar produzindo algo útil em cada minuto de descanso
E tenta prever e evitar todos os possíveis problemas futuros em vez de lidar com o presente
E se sente pessoalmente ofendido por atrasos ou falhas alheias que fogem do seu comando
E tenta monitorar a vida alheia nas redes sociais comparando seus bastidores com o palco dos outros
E não consegue desconectar do e-mail profissional após o expediente por medo de perder algo "importante"
E mantém uma lista de tarefas irrealista que gera culpa ao invés de produtividade
E nutre um rancor silencioso por problemas familiares que nunca se dispõe a resolver ou aceitar
E vive projetando a felicidade em um evento futuro ("quando eu tiver X", "quando eu for Y"), ignorando o presente
E negligencia o sono para ganhar horas de lazer passivo na frente de uma tela...
Nenhum e todos os itens dessa lista causam o complexo.
É por isso que eu odeio o termo tão utilizado na psicologia pop: o "gatilho".
Quando as pessoas falam do "gatilho", elas falam da parte dessa teia que as incomoda, e gostam de atribuir todos os males do mundo ao suposto gatilho, que geralmente está fora do controle delas, ignorando os diversos outros pontos em que poderiam melhorar algo na vida.
O cidadão quer falar e cria um discurso digno de estadista contra as redes sociais, contra os colegas de trabalho, contra os foristas da bastter.com, [uma lista parecida com a anterior está inserida aqui]... ignorando o que poderia fazer para melhorar.
Outra forma de uma ação se tornar um problema é pela ultraespecialização.
No tópico que eu linkei acima, tem uma conversa minha com o @fernando sobre fazer planilhas de gastos.
Sabe qual é o problema em fazer planilhas de gastos? Nenhum.
Existem formas mais simples de lidar com isso? Provavelmente.
Então é melhor não fazer? Tanto faz.
Porque o problema não é a Planilha. É fazer a lista como uma ferramenta em servidão à ansiedade, especialmente se a pessoa acha que, numa atividade tão simples, aumentar a eficiência produz algum resultado maior.
Que eu me lembre, somente o @fernando descreve as ponderações dele sobre o uso da lista.
Todos os outros tópicos são perguntando como registar melhor os gastos, um app melhor, um app mais rápido, que dê algum insight. Num credo de que melhorar a eficiência da lista melhoraria alguma coisa.
Daí que nasce a piada da bala Juquinha, dos 13 reais, porque quem fala sobre isso aqui no site não fala de planilhas; ele quer falar da eficiência em ter a precisão da vigésima casa decimal.
Quem fala aqui sobre economizar, não quer falar sobre economizar, quer falar sobre o adoecimento.
Sabe o estadista que eu comentei ali em cima? Ele tem o mesmo problema. Ele é um viciado em falar do problema. Lê teorias e repete, e engana-se. Descreve, descreve e descreve um problema que é incapaz de mudar, até porque ele não quer mudar. (Geralmente, ele quer que o mundo mude, ou só fugir do julgamento social).
Assim como nos posts sobre família em que a pessoa descreve com precisão absoluta todos os problemas do outro (pai, mãe, marido, filho, etc.) e é incapaz de falar de si.
A pessoa engana-se, e muito, achando que ao falar melhor sobre o problema dos outros vai melhorar alguma coisa.
Como é comum nesse tipo de post, a pessoa gera tanto barulho que, se alguém ler a letra fria do que está escrito, não dá nem para entender o porquê de a pessoa conviver com o demônio debaixo do próprio teto.
Um problema muito comum de sistemas de eficiência é que o ser humano se perde. Quando o critério de sucesso vira a eficiência, é muito comum que a ferramenta acabe por ser mais valorizada do que o resultado.
Eventualmente, vira um tipo de obsessão-compulsão (seja ela adoecida ou não, problemática ou não), um problema de estimação que a pessoa tem pelo medo de um problema maior.
A obsessão é a relação que existe com a dificuldade de se relacionar com um pensamento, emoção ou situação a que a pessoa dá muita atenção e não consegue ignorar, o que leva...
À compulsão: comportamentos ou atos mentais repetitivos ou excessivos para neutralizar a obsessão.
A compulsão é justamente a ultraespecialização de um comportamento que até poderia resolver parcialmente um problema.
Como o "problema" ou a obsessão é intolerável para a pessoa, ela não quer uma solução parcial. Ela quer a solução total, a que garanta absolutamente o resultado, independentemente dos prejuízos que isso crie ou de ser apenas uma fantasia.
Ela quer controlar a bala Juquinha porque, na cabeça dela, é intolerável que ela venha a tornar-se pobre, ainda mais por causa da bala Juquinha, por mais que isso não faça o menor sentido.
Então...
Saibam que falando de coisas normais, dificilmente alguma isolada é terrível e vai causar algum mal.
Saibam também que todos nós temos dificuldades em perceber nossos problemas, e, frequentemente, vamos nos enganar sobre o que fazemos. Que criamos narrativas fantasiosas e muitas vezes obsessivas sobre problemas que não existem.
Se for só um item da lista, seja feliz com seu problema.
Se existe uma lista...
Resolva suas ansiedades, mas não só da parte que te incomoda. Resolva também a ansiedade que incomodam os outros, e mais importante ainda, a sua ansiedade que você se engana falando que te faz bem...
Aquela que você precisa dizer repetidamente e insistentemente que é sua amiga.