BOA TARDE, PESSOAL. MAIS UMA VEZ COMPARTILHANDO FRUTOS DE ESTUDOS PESSOAIS, OS QUAIS NÃO CONSIGO COMPARTILHAR COM MAIS NINGUÉM, MAS AINDA NUTRO ESPERANÇAS DE ENCONTRAR UMA PARCERIA!
Cenário:
Uma mesa simples. Sartre fuma seu cachimbo, calmo e analítico. Kierkegaard parece agitado, os olhos brilhando com uma intensidade febril.?Sartre: (Solta uma baforada de fumaça) Li seus diários, Søren. Devo admitir, você foi o primeiro a diagnosticar a vertigem. A vertigem da liberdade. Você viu que olhar para o abismo da possibilidade nos causa náusea. Mas, meu caro, você correu para a saída de emergência cedo demais.
?Kierkegaard: Saída de emergência? O que você chama de saída, Jean-Paul, eu chamo de
Salto. E não foi uma fuga; foi o movimento mais difícil que um ser humano pode fazer. Você parou na borda do penhasco, olhou para baixo e decidiu que a vertigem era tudo o que existia. Você se apaixonou pelo abismo.
?Sartre: Eu não me apaixonei por ele; eu o aceitei. Essa é a única postura autêntica. Se Deus não existe — e Ele não existe —, então estamos sós. Sem desculpas. Sem um pai celestial para enxugar nossas lágrimas ou validar nossos valores. O homem é, antes de tudo, um projeto que se lança no futuro. Quando você invoca o "Absurdo" ou o "Paradoxo" para trazer Deus de volta, você está agindo de má-fé. Você está tentando preencher o vazio da sua liberdade com uma estrutura pré-fabricada para se sentir seguro.
?Kierkegaard: (Ri, balançando a cabeça) Seguro? Você acha que a fé de Abraão é
segura? Subir o Monte Moriá para sacrificar o próprio filho é segurança? Minha fé não é o conforto ético de uma missa de domingo; é um terror e tremor constante! Você fala de liberdade, Jean-Paul, mas a sua liberdade é um desespero estático. Você diz que o homem "cria a si mesmo". Mas um "eu" que se fundamenta apenas em si mesmo é como um prédio construído sobre o ar. Ele desmorona em desespero. O "eu" só é saudável, só é
verdadeiro, quando descansa transparentemente no Poder que o criou.
?Sartre: Mas esse "Poder" é uma contradição! Se existe um Criador onisciente que me desenhou como um cortador de papel é desenhado para cortar papel, então eu não sou livre. Sou um objeto. Uma ferramenta. Para que eu seja livre, para que minha existência preceda minha essência, Deus
precisa estar morto. É uma necessidade ontológica. Eu lhe ofereço a dignidade total: você é inteiramente responsável pelo que faz de si mesmo. Não é isso mais nobre do que ser um peão num jogo divino incompreensível?
?Kierkegaard: Nobreza... ou orgulho? Você quer ser o autor da sua própria existência, mas você é finito. Como o finito pode sustentar o infinito desejo do coração humano? É por isso que sua filosofia termina em "náusea". Você sente o peso do infinito, mas nega a fonte dele. Você me oferece a "liberdade absoluta", mas é a liberdade de um prisioneiro numa cela vazia que grita "eu sou o rei daqui!". A verdadeira liberdade não é a ausência de Deus; é a coragem de ser um Indivíduo
diante de Deus. Onde a multidão não conta, onde as convenções sociais não contam, apenas você e o Absoluto.
?Sartre: (Inclinando-se para frente) Mas olhe para o custo, Søren! Para manter essa relação, você precisa sacrificar a razão. Você mesmo disse: é preciso crucificar o entendimento. Eu não posso fazer isso. Eu sou um filósofo da clareza, da consciência fenomenológica. Eu vejo o mundo como ele é: cru, contingente, sem sentido intrínseco. Nós somos nós que colocamos o sentido nele. Venha para o meu lado e veja a beleza terrível de ser o único legislador do universo. Não há inferno senão os outros, e não há céu senão a sua própria vontade. Liberte-se desse "Grande Outro" que o vigia pelo buraco da fechadura.
?Kierkegaard: E eu lhe digo que o seu "legislador" está legislando no vácuo! Você diz que o homem é uma "paixão inútil". Que triste conclusão! Você está preso no Estádio Ético, ou talvez nem isso... você é um esteta do desespero intelectual. Você descreve a doença perfeitamente, mas recusa o remédio. O salto da fé não é irracional no sentido de "estúpido"; é suprarracional. É onde a vida começa de verdade. A sua liberdade é um fardo, Jean-Paul. A minha é uma dádiva. Deixe de tentar ser Deus — que é o que o homem deseja, segundo você mesmo — e ouse ser apenas um Indivíduo amado pelo Absurdo.
?Sartre: (Recosta-se, com um sorriso irônico) Eu prefiro o fardo da minha própria lucidez à dádiva de uma ilusão consoladora. Se a liberdade é um fardo, eu a carrego de bom grado. Sou condenado a ser livre, Søren. E você... você está condenado a esperar por uma resposta que nunca virá, num silêncio eterno.
?Kierkegaard: O silêncio
é a resposta, Jean-Paul. É no silêncio que o Indivíduo se torna real. E talvez, no fundo dessa sua náusea, você esteja mais perto de Deus do que imagina. Pois só quem desespera absolutamente está pronto para o Salto.
?Sartre: (Apaga o cachimbo) Nisso concordamos: o desespero é o começo. Mas para mim, é também o fim das ilusões. Para você, é o começo de outra.
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