Anos atrás eu trabalhava em cozinhas. Eu não era nem sou chef ou sous-chef; era cozinheiro mesmo, às vezes pizzaiolo, às vezes lavador de pratos, às vezes limpando coisas. Pouquíssimas vezes como garçom, porque ninguém em sã consciência pensaria em me deixar atender o público.
Os horários de trabalho eram terríveis, em média de 12h diárias, 7 dias na semana. Lógico que isso me fez mal, e não teria muito o que fazer sobre isso.
Eu adoeci e vi muita gente adoecer nesse período da minha vida. Eu não sabia quase nada do que sei sobre teoria e práticas relacionadas à saúde mental, então o processo foi bem degradante e o final dele não foi bom.
Seja como for, felizmente, esse período é do tipo que não me matou, então o que sobra é a escolha do que fazer daqui para frente. Eu consegui me reorganizar e construir algo além do que aconteceu, e isso é o suficiente.
Não é o tipo de coisa que eu sabia ainda, mas qualquer coisa que acaba e nós temos chance de tentar de novo é um fim aceitável. Seja emprego, namoro, formação, competição, hobby, adoecimento ou qualquer processo complicado da vida.
Da forma que for, sair do outro lado com o suficiente para tentar de novo é um fim bastante razoável. As coisas terríveis da vida são as que criam barreiras intransponíveis; não foi o caso. Aqui estou.
Só que, para chegar no fim, tem o meio do processo e, como acontece em todos os processos de adoecimento por trabalho, a minha vida pessoal começou a desmoronar por falta de energia, saco, virtude, sobriedade e tantas outras coisas. É característica comum da estafa causada por trabalho — o tal do burnout — corromper a capacidade de engajamento positivo na vida pessoal, e comigo não foi diferente; somada à quantidade nada razoável de álcool que eu consumia, o sucesso do fracasso era inevitável.
No meio da bagunça toda, eu percebi a minha completa indisponibilidade em lidar com coisas de cozinha fora do trabalho. Certo que alguém que alugava um quarto em um trailer não tinha tantas coisas para lidar, nem eu tinha lá muito tempo para lidar com qualquer coisa fora do trabalho, mas nas poucas situações “livres”, eu sempre pensava que já fazia demais no trabalho para gastar meu tempo livre fazendo coisas de cozinha.
Perceber é importante; é onde eu começo as minhas intervenções com pacientes hoje em dia. Um carro sem direção fatalmente vai acertar um muro, então eu passo o tempo que for necessário trabalhando a percepção. É quase impossível agir efetivamente naquilo que não percebemos, ou nos recusamos a perceber.
Por motivos de lapso de brilhantismo, eu consegui dar um passo além e agir sobre isso. A memória sobre algo que aconteceu há mais de vinte anos me falha em descrever exatamente como foi; eu me lembro como algo nesta linha:
"Eu gasto 90 horas da minha semana limpando os pratos de pessoas que não me importam, por que eu vou tirar isso das pessoas que eu amo?".
Traduzindo para como eu ouço isso hoje:
Por que eu vou deixar no trabalho tudo a ponto de não ter nada para levar para casa?
Não foi nada de especial ou radical. Não é como se eu tivesse me tornado a pessoa mais organizada do mundo (eu ainda sou muito mais organizado no trabalho do que na minha vida pessoal), ou que eu passe meus dias cozinhando para todos da minha vida. À época, foi uma pequena mudança em ajudar a lavar a louça ou na cozinha em encontros de família. Nada demais.
A maioria das mudanças que eu vejo na vida das pessoas começa em coisas nada demais.
Uma das brincadeiras interessantes da vida é que a gente nunca sabe até onde uma pequena mudança pode reverberar.
Cozinhar para as pessoas da minha vida é um hábito comum; inclusive, é uma característica que eu carrego e sou reconhecido por ela. Muitas das boas memórias que eu tenho com amigos e vários relacionamentos aconteceram enquanto eu cozinhava.
É uma coisa tão intrincada na minha vida que eu não saberia viver direito sem isso hoje. Uma das minhas atividades normais de *mindfulness* é juntar a proporção 100g de farinha : 1 ovo e fazer macarrão. Uma parte relevante da vida com meu filho existe em volta dos pratos que eu preparo para ele.
Não existe nenhum mundo possível em que o Paulo de 20 e poucos anos poderia dizer que, daquela confusão toda, isso seria possível, e nem de longe essa é a parte mais importante.
Eu passo boa parte dos meus dias negligenciando as minhas necessidades para atender às necessidades dos outros. Eu ouço, acolho, sustento, amparo e ajudo os outros entre 50 a 60 minutos de cada hora, muitas vezes só podendo agir sobre as minhas necessidades de tomar água e ir ao banheiro.
Não há qualquer tipo de dúvida de que, no fim do dia, me falta mais do que eu tenho, e seria muito fácil cobrar de quem me cerca aquilo que eu deixei no trabalho; e, provavelmente, assim seria se eu não tivesse percebido e agido naquela época.
(Ou outra coisa poderia ter acontecido e eu caído no mesmo lugar. A vida é generosa. Ela nos dá muitas chances de aprender as coisas que precisamos).
Não é que eu seja perfeito e faça tudo com maestria. Existem os dias fáceis e os dias difíceis; também existem os dias impossíveis, que hoje em dia são raros.
Em todos eles, o pensamento está lá me lembrando que o quanto eu deixei no trabalho não é uma desculpa para eu deixar de tratar os meus com carinho, escuta, acolhimento e amparo, e também não é uma obrigação deles suprir aquilo que eu entreguei tanto para tantas outras pessoas.
Se não fosse por um pensamento solto que me apareceu vinte e tantos anos atrás, se não fosse um pensamento besta sobre lavar louça.