
A obra
As Seis Doenças do Espírito Contemporâneo, de Constantin Noica, é um ensaio filosófico sobre as patologias espirituais do ser humano moderno. O autor parte de um modelo ontológico formado por três instâncias: o Individual, isto é, a singularidade concreta, as Determinações, isto é, as formas, mediações e configurações pelas quais algo se realiza, e o Geral, isto é, o universal, a ordem de sentido e a dimensão integradora do ser. A saúde do espírito depende da articulação viva entre esses três polos. A doença surge quando um deles falta, é recusado ou deixa de se integrar aos demais.
Noica distingue, assim, doenças por carência e doenças por recusa. Entre as doenças por carência está a catolite, em que falta o horizonte do Geral, produzindo uma existência presa ao imediato, ao funcional e ao fragmentário. Um exemplo disso pode ser visto no tecnocrata ou burocrata moderno que domina procedimentos e técnicas, mas perdeu qualquer noção de finalidade superior ou de sentido humano mais amplo. A todetite corresponde à precariedade do Individual, quando a singularidade concreta não consegue assumir de modo próprio as determinações inscritas numa ordem geral. Um exemplo seria o homem massificado, incapaz de formar convicções próprias e que apenas reproduz discursos coletivos, modas ideológicas ou comportamentos padronizados. Já a horetite nasce da falta de determinações adequadas, quando há uma forma individual e uma vocação geral, mas falta a mediação concreta capaz de realizar essa possibilidade. Pode-se pensar aqui no intelectual ou idealista que possui grandes aspirações espirituais ou culturais, mas não consegue transformá-las em obra, disciplina ou ação efetiva.
As doenças por recusa são mais radicais. A acatolia recusa o Geral, a atodecia recusa o Individual, e a ahorecia recusa as Determinações. Nelas, o espírito não apenas sofre uma falta, mas rejeita deliberadamente uma das dimensões necessárias do ser. A acatolia pode ser exemplificada pelo niilismo contemporâneo, que nega qualquer verdade universal ou sentido transcendente. A atodecia aparece nos coletivismos radicais e fanatismos ideológicos em que o indivíduo dissolve completamente sua responsabilidade pessoal em nome da raça, da classe, do partido ou de alguma abstração histórica. Já a ahorecia manifesta-se em utopismos incapazes de aceitar os limites concretos da realidade, recusando instituições, formas ou regras necessárias para transformar ideias em existência histórica efetiva.
Por isso, essas patologias ajudam a compreender tanto o niilismo e o relativismo contemporâneos quanto a dissolução da responsabilidade individual em sistemas abstratos ou a fuga para idealismos incapazes de encarnação concreta.