Meu vô era um senhor muito saudável, lúcido e ativo. No auge dos seu 90 anos, sem nenhuma doença crônica ou uso de medicações, não dependia de ninguém, tomava conta da casa junto com a minha avó, pintava, subia no telhado, cuidava de uma horta enorme no quintal do imóvel que compraram há décadas no interior, onde criaram minha mãe e meus tios sem luxos mas com muito amor. Se aposentou perto dos 70 anos e desde então vivia dos seus aposentos recebidos do INSS. Meus tios insistiam em fazer um plano de saúde para eles, mas sempre recusaram. Fiel confiante do SUS, se consultava no postinho do bairro quando precisava e dizia:
"quando eu for morrer, dois dias antes eu pego o dinheiro no banco e resolvo tudo". Se meus tios desconfiassem de algo mais grave, me mandavam os exames para eu conferir, já que sou o único médico da família. Sempre tudo ótimo.
Pois bem, o clima esfriou e a gripe atacou. Vinha se recuperando mas subitamente piorou. A gripe virou uma pneumonia bacteriana gravíssima e foi levado de SAMU para uma UPA. Lá um quadro clássico de pneumonia foi confundida com pedra nos rins
(Não precisa ser médico para saber o quanto isso é inadmissível!!!) e meu avô iniciava uma série de sofrimentos em meio à negligência médica. 15 horas se passaram da admissão até o início de um antibiótico para tratamento, o que é catastrófico.
Assim que soube, saí correndo e cheguei na cidade. Meu avô já havia sido transferido para um hospital com poucos recursos e quando cheguei para vê-lo, não tinha condições nenhuma de permanecer onde estava, precisava ser intubado e monitorizado horas atrás. Prontamente solicitamos uma ambulância e pedimos vaga em um hospital particular, onde recebeu tudo que poderia ser feito, lutou bravamente, mas veio a falecer duas semanas depois, sem mais sofrimentos.
Todos os custos de 2 semanas de internação em CTI foram pagos com folga com o dinheiro acumulado ao longo da vida, sobrando mais que o dobro caso minha avó precise (mas vou convencê-la do plano de saúde). Enquanto ele lutava pela vida, minha avó dizia:
"esse dinheiro é para isso, não se preocupem". E assim ele se foi: nunca precisou de ajuda de ninguém, nem mesmo no seu momento mais crítico.
Bom, e o que eu tirei disso tudo?
1) O tempo é tudo. Aos 90 anos, mesmo sempre trabalhando com serviços pouco remunerados, acumulou o suficiente para não passar aperto no fim da vida.
2) Manter-se ativo, ter alguma função e sentir-se útil, mesmo que em casa, é fundamental para manter a saúde. Não é garantia, mas coloca as chances ao seu favor.
3) Envelhecer bem é poder ter escolhas.
Não consegui salvar meu avô, mas consegui trazer um pouco de dignidade no seu fim de vida, que foi provido por ele mesmo. Hoje ficamos na saudade e com os ensinamentos.