Alguém vai lembrar disso....
Disputa de penalti na final da copa america de 1993
O Boiadeiro teve sua cobrança defendida pelo goleiro argentino Goycochea......
Meu tio avisou que o boiadeiro era ruim.............
Era só um jogo.
Brasil e Argentina.
Uma televisão que não existe mais,
uma sala simples,
e eu ao lado do meu tio.
Naquele dia, eu não sabia
que estava guardando muito mais do que uma partida.
Achava que estava vendo futebol.
Na verdade, estava aprendendo o valor de um momento.
Vieram os pênaltis.
O silêncio entre uma cobrança e outra
parecia maior do que o estádio inteiro.
Meu tio olhava firme para a televisão.
Eu olhava para ele.
Quando o Brasil perdeu,
a tristeza durou alguns dias.
Mas o tempo fez o que sempre faz:
levou o resultado,
apagou o placar,
esqueceu os nomes de quase todos os jogadores.
O que ele não levou
foi aquele instante.
Hoje percebo
que a memória não guardou a derrota.
Guardou a companhia.
Meu tio já partiu.
A voz dele já não ecoa pela casa.
A cadeira onde se sentava
talvez esteja vazia há muito tempo.
Mas, de vez em quando,
basta uma lembrança,
um vídeo antigo,
uma disputa de pênaltis,
e tudo volta.
É como se eu pudesse sentar novamente ao seu lado,
escutar seus comentários,
ver seu jeito de torcer,
e, por alguns minutos,
o tempo desistisse de passar.
Descobri que as pessoas que amamos
não permanecem apenas nas fotografias.
Elas vivem nos pequenos rituais da memória:
numa música,
num cheiro,
num café,
ou numa cobrança de pênalti de trinta anos atrás.
Aquele Brasil perdeu.
Mas eu ganhei uma lembrança
que o tempo nunca conseguiu vencer.
Hoje, quando penso naquele jogo,
já não vejo a bola na marca do pênalti.