
Entre 1967 e 2022, a distribuição de renda das famílias americanas mudou de forma significativa. A parcela dos domicílios situados na faixa de renda média caiu de 54,6% para 39,1%. Essa redução, porém, não decorreu principalmente de uma migração para a baixa renda. No mesmo período, a participação dos domicílios com renda anual inferior a US$ 35 mil recuou de 32,3% para 23,3%, enquanto a parcela com renda de US$ 100 mil ou mais avançou de 13,1% para 37,5%, considerando valores constantes de 2022. Os dados mostram, portanto, que uma parte importante das famílias deixou a faixa intermediária em direção às faixas superiores de renda. Mas uma renda maior, ainda que real, não significa necessariamente maior patrimônio nem melhora proporcional do poder de compra, especialmente quando o custo de vida e o preço dos bens aumentam mais rapidamente, como será visto adiante.

Desde o fim da década de 1960, duas mudanças importantes ajudam a explicar parte da elevação da renda das famílias americanas: o aumento da participação de casais em que ambos trabalham e a forte expansão do ensino superior. A proporção de casais com duas rendas passou de 44%, em 1967, para 49%, em 2025. Ao mesmo tempo, a parcela de adultos com graduação completa ou nível superior aumentou fortemente. Entre os homens, passou de 13,5% em 1970 para 37,1%, em 2024. Entre as mulheres, passou de 8,1% para 40,1%. Essas transformações ajudam a compreender por que uma parcela maior das famílias passou a alcançar faixas superiores de renda. Ainda assim, uma família com duas pessoas trabalhando e renda familiar maior não necessariamente desfruta de melhora proporcional no padrão de vida. Se moradia, transporte, saúde, educação, crédito e outros custos aumentam mais rapidamente do que a renda, uma parcela maior dos recursos pode ser consumida apenas para manter o mesmo nível de acesso a bens e serviços.

Ainda assim, a melhora da renda não implica, necessariamente, uma distribuição semelhante da riqueza acumulada. Nos Estados Unidos, os 10% das famílias com maior patrimônio concentravam 67,2% de todo o patrimônio líquido no quarto trimestre de 2024, enquanto a metade mais pobre detinha apenas 2,5%. O patrimônio líquido médio era de cerca de US$ 8,1 milhões por família entre os 10% do topo e de aproximadamente US$ 60 mil entre a metade inferior. A diferença é fundamental: renda representa um fluxo de recursos, enquanto patrimônio corresponde ao estoque de ativos acumulados, descontadas as dívidas. Uma família pode, portanto, ter renda relativamente alta e ainda possuir pouco patrimônio. Além disso, renda maior não garante acesso proporcionalmente maior a determinados bens. Se o preço de compra de um imóvel, o aluguel ou o custo do crédito aumentam mais rapidamente do que a renda, a capacidade de acesso pode até diminuir.

Em escala internacional, a concentração patrimonial é bastante acentuada. Em 2024, cerca de 60 milhões de adultos, aproximadamente 1,6% do total considerado, possuíam patrimônio superior a US$ 1 milhão e concentravam 48% de toda a riqueza mundial. Na faixa entre US$ 100 mil e US$ 1 milhão estavam cerca de 1,1 bilhão de adultos, aproximadamente 29% do total, detendo outros 38% da riqueza. Somadas, essas duas faixas concentravam 86% de toda a riqueza. Na outra extremidade, cerca de 1 bilhão de adultos, aproximadamente 26% do total, possuíam patrimônio inferior a US$ 10 mil e respondiam por menos de 1% da riqueza total. Essa distribuição reforça a ideia de que renda corrente, poder de compra e patrimônio acumulado são dimensões distintas da condição econômica. Uma pessoa pode ter renda mais alta sem enriquecer na mesma proporção e sem ampliar, no mesmo ritmo, sua capacidade de adquirir bens e serviços. Isso ocorre especialmente quando o custo de vida, o preço dos ativos e o custo de acesso a determinados bens aumentam mais rapidamente do que a renda.