Walter Orthmann assinou a ficha número 130 da Indústrias Renaux em 17 de janeiro de 1938 e nunca trabalhou em outro lugar. Tinha 15 anos quando entrou como auxiliar de expedição na empresa, em Brusque, Santa Catarina, e permaneceu na mesma companhia por mais de oito décadas. Em janeiro de 2022, o Guinness World Records certificou 84 anos e 9 dias de trabalho na mesma empresa, reconhecendo-o como detentor do recorde mundial de carreira mais longa em uma única companhia.
Orthmann completou 100 anos em 19 de abril de 2022 e continuava dirigindo o próprio carro até o escritório todos os dias. Sua entrada na fábrica ocorreu em um contexto de dificuldades financeiras da família. Como filho mais velho de cinco irmãos, foi levado pela mãe para procurar emprego. O domínio do idioma alemão, bastante presente em Brusque devido à imigração, ajudou em sua contratação. Antes disso, ele caminhava descalço até a escola, enfrentando chuva, sol, lama e geada, e era descrito como um aluno de memória excepcional e atento aos detalhes.
Seu primeiro trabalho era manual e repetitivo: enrolava, etiquetava e separava tecidos na expedição. Depois, passou pelas funções de office boy e assistente administrativo até chegar ao setor comercial, onde permaneceria pelo restante da carreira. Em sua primeira oportunidade como vendedor, viajou a São Paulo e, em menos de uma semana, retornou com pedidos equivalentes a três meses de produção da fábrica. Foi promovido a gerente de vendas e, a partir dos anos 1950, passou a viajar pelo país, construindo uma ampla rede de clientes.
Ao longo de 86 anos de trabalho, Orthmann atravessou profundas transformações econômicas, sociais e tecnológicas. Segundo levantamento divulgado pelo Tribunal Regional do Trabalho da 12ª Região, recebeu salários em nove moedas diferentes. Também acompanhou a informatização das empresas. Em entrevista à revista IstoÉ, contou que, ao usar pela primeira vez uma calculadora trazida da Alemanha, conferia manualmente os resultados porque desconfiava da máquina. Para ele, uma das principais lições da vida profissional era a necessidade de se manter atualizado e de se adaptar às mudanças.
Mesmo depois dos 100 anos, Orthmann mantinha uma rotina ativa. Dirigia até o trabalho e praticava exercícios regularmente, inclusive nos fins de semana. Segundo o Guinness, conservava boa saúde, clareza mental e memória preservada. Costumava dizer que não fazia muitos planos nem se preocupava excessivamente com o futuro; preferia concentrar-se em acordar, se exercitar e trabalhar. Também defendia que, quando uma pessoa gosta do que faz, não percebe o tempo passar.
Walter Orthmann continuou trabalhando até janeiro de 2024, quando se afastou das atividades por problemas de visão. Naquele momento, havia completado aproximadamente 86 anos na mesma empresa. Morreu em 2 de agosto de 2024, aos 102 anos, em sua residência, por causas naturais. O recorde reconhecido pelo Guinness em 2022 havia superado uma marca que já pertencia ao próprio Orthmann: anteriormente, ele já havia sido reconhecido por permanecer 81 anos e 85 dias na mesma companhia.
Sua trajetória tornou-se um caso excepcional de longevidade profissional. Mais do que um recorde de permanência em uma empresa, sua história atravessou diferentes períodos políticos, moedas, tecnologias e formas de organização do trabalho no Brasil, começando em 1938 e chegando ao século XXI.
Brasileiro de 100 anos quebra recorde mundial para a carreira mais longa na mesma empresa | Guinness World Records