Um estudo, publicado em 2026, compara o desempenho de três carteiras teóricas de ações brasileiras com diferentes referenciais de mercado. Nesta análise, o foco recai sobre a comparação com o CDI e o Ibovespa, em horizontes de 5, 10, 15, 20 e 25 anos. Formadas sob uma estratégia estritamente
buy-and-hold, sem rebalanceamento, rotação de ativos ou aportes ao longo das janelas analisadas, as três carteiras apresentaram desempenho superior aos dois referenciais na ampla maioria das comparações.
Em relação ao CDI, as carteiras o superaram em todos os recortes de 10, 15, 20 e 25 anos e em oito dos nove recortes de 5 anos. Em relação ao Ibovespa, todas as três carteiras apresentaram retorno superior em todos os horizontes e nas três datas finais analisadas. Em diversas janelas, as diferenças de retorno foram expressivas. A proposta do estudo é verificar como esse desempenho relativo muda conforme o prazo do investimento e também conforme a data escolhida para encerrar a análise. Para isso, cada horizonte foi testado em três datas finais diferentes, reduzindo a dependência de um único ponto de corte temporal.
Cada carteira teórica foi formada por oito ações, com pesos iguais apenas no início de cada janela. A partir daí, a estratégia foi estritamente
buy-and-hold, sem rebalanceamento ou rotação de ativos. A simulação também não incorporou aportes, rotação tática ou otimização. Assim, os pesos das ações foram se alterando naturalmente conforme cada ativo valorizava ou desvalorizava ao longo do período.
O
Portfólio A é composto por PETR3, VALE3, ITUB3, BBAS3, CMIG3, EGIE3, ABEV3 e VIVT3.
O
Portfólio B reúne PETR3, VALE3, BBDC3, ITUB3, CPLE3, EGIE3, ALPA3 e SBSP3.
O Portfólio C é formado por PETR3, VALE3, BBAS3, BBDC3, CMIG3, CPLE3, CSNA3 e LEVE3.
Os retornos das carteiras são de
Total Return, ou retorno total. Isso significa que o cálculo considera não apenas a valorização das ações, mas também os proventos distribuídos, com reinvestimento teórico desses valores. Na prática, esse reinvestimento pode estar sujeito a fricções operacionais, como lotes, custos e diferenças de
timing. Além disso, os resultados apresentados pelo estudo são brutos e não incorporam custos de transação,
spreads, emolumentos, tributação ou outros custos de implementação.
Na janela de 5 anos encerrada em 10 de fevereiro de 2026, os Portfólios A, B e C apresentaram retornos anuais compostos de 19,17%, 20,73% e 19,74%, respectivamente. No mesmo período, o CDI rendeu 11,27% ao ano e o Ibovespa, 9,53%. Quando o ponto final foi deslocado seis meses para trás, os retornos das três carteiras ficaram em 16,63%, 14,18% e 18,22%, contra 9,92% do CDI e 5,68% do Ibovespa. No recorte encerrado em fevereiro de 2025, os retornos foram de 12,00%, 8,74% e 12,72%, contra 8,81% do CDI e 2,24% do Ibovespa. Foi nesse último recorte que ocorreu a única situação em que uma das carteiras, o Portfólio B, ficou ligeiramente abaixo do CDI. Mesmo nesse caso, permaneceu bem acima do Ibovespa.
Na janela de 10 anos, os resultados foram favoráveis às três carteiras em todos os pontos de corte. No recorte encerrado em fevereiro de 2026, os Portfólios A, B e C renderam 24,44%, 26,40% e 26,25% ao ano, enquanto o CDI ficou em 9,38% e o Ibovespa em 16,74%. No recorte encerrado em agosto de 2025, os retornos foram de 16,04%, 18,82% e 18,24%, contra 9,34% do CDI e 10,84% do Ibovespa. Já no recorte encerrado em fevereiro de 2025, as três carteiras renderam 16,63%, 18,69% e 18,56%, frente a 9,28% do CDI e 10,15% do Ibovespa.
Na janela de 15 anos, a vantagem das carteiras sobre o CDI permaneceu, embora com diferenças menores. No recorte encerrado em fevereiro de 2026, os Portfólios A, B e C renderam 12,76%, 14,39% e 12,66% ao ano, contra 9,75% do CDI e 7,42% do Ibovespa. No recorte encerrado em agosto de 2025, os retornos foram de 11,30%, 12,30% e 11,64%, contra 9,61% do CDI e 4,89% do Ibovespa. No recorte encerrado em fevereiro de 2025, os resultados ficaram em 10,93%, 11,45% e 11,70%, enquanto o CDI rendeu 9,45% e o Ibovespa 4,56%.
Na janela de 20 anos, os resultados se mostraram mais estáveis entre as diferentes datas finais. No recorte encerrado em fevereiro de 2026, os Portfólios A, B e C tiveram retorno anual composto de 12,48%, 14,71% e 12,85%, contra 10,22% do CDI e 8,56% do Ibovespa. No recorte encerrado em agosto de 2025, os retornos foram de 12,94%, 14,90% e 13,66%, enquanto o CDI ficou em 10,31% e o Ibovespa em 8,55%. No recorte encerrado em fevereiro de 2025, as três carteiras renderam 13,39%, 14,31% e 13,88%, contra 10,44% do CDI e 8,25% do Ibovespa.
Na janela de 25 anos, a estabilidade foi ainda maior. No recorte encerrado em fevereiro de 2026, os Portfólios A, B e C renderam 17,37%, 17,09% e 17,53% ao ano, enquanto o CDI rendeu 11,93% e o Ibovespa 10,24%. No recorte encerrado em agosto de 2025, os retornos ficaram em 17,07%, 16,26% e 17,06%, contra 11,95% do CDI e 8,87% do Ibovespa. No recorte encerrado em fevereiro de 2025, os resultados foram de 17,37%, 16,29% e 17,45%, enquanto o CDI rendeu 12,03% e o Ibovespa 8,08%.
O conjunto dos resultados mostra que a vantagem das carteiras não dependeu de uma única data de encerramento. Nos horizontes de 10 a 25 anos, a superioridade sobre o CDI ocorreu de forma consistente nas três datas finais analisadas. No horizonte de 5 anos, houve apenas uma exceção, com o Portfólio B ficando marginalmente abaixo do CDI no recorte encerrado em fevereiro de 2025, com 8,74% ao ano contra 8,81% do CDI, diferença de apenas 0,07 ponto percentual. Frente ao Ibovespa, a superioridade das três carteiras foi uniforme em todos os horizontes e pontos de corte considerados.
Também é importante observar que o retorno adicional veio acompanhado de volatilidade muito maior. Na janela de 25 anos encerrada em fevereiro de 2026, a volatilidade anualizada das carteiras ficou entre 21,44% e 25,40%, contra apenas 1,28% do CDI. Os
drawdowns máximos chegaram a 44,22% no Portfólio A, 52,48% no B e 55,78% no C. Isso significa que a superioridade de retorno exigiu suportar oscilações e quedas temporárias muito mais intensas do que as observadas no CDI.
Outro ponto central é que os resultados de curto prazo foram muito mais sensíveis à data escolhida para encerrar a análise. Em 5 anos, mudanças no ponto de corte alteraram de forma relevante os retornos e até a ordenação entre os três portfólios. Já nas janelas mais longas, especialmente em 20 e 25 anos, os diferenciais em relação ao CDI apresentaram maior estabilidade entre as três datas finais.
A comparação com o Ibovespa merece atenção especial. O desempenho das três carteiras foi bastante diferente do índice em vários períodos, mostrando que uma carteira específica de ações brasileiras pode produzir resultados muito distintos daqueles representados pelo principal índice da Bolsa brasileira. No recorte de 25 anos encerrado em fevereiro de 2026, por exemplo, o Ibovespa apresentou CAGR de 10,24%, inferior tanto ao CDI, de 11,93%, quanto aos três portfólios, que ficaram entre 17,09% e 17,53% ao ano.
Embora não seja o foco desta análise, o estudo também utiliza o S&P 500 em reais como referência adicional, nas versões
Price Return e
Total Return. Essa comparação exige uma leitura própria porque a série em reais reflete simultaneamente a trajetória do índice em dólares, o tratamento dos proventos e a variação cambial entre o dólar e o real. Por esse motivo, os resultados do S&P 500 não são explorados aqui, mantendo-se o foco na comparação das carteiras brasileiras com o CDI e o Ibovespa.
Há, contudo, limitações importantes. O universo analisado reúne poucas ações e não constitui uma amostra estatística representativa do mercado brasileiro. O próprio estudo reconhece a possibilidade de viés de sobrevivência e de seleção, já que a análise depende das séries disponíveis no recorte. Por isso, os resultados não devem ser generalizados para ações brasileiras em sentido amplo. A própria rigidez da estratégia também deve ser considerada, pois a simulação utiliza
buy-and-hold sem rebalanceamento e não incorpora aportes, rotação tática ou otimização. Portanto, não pretende reproduzir todas as decisões que um investidor ou gestor poderia tomar ao longo do tempo.
Em síntese, o estudo mostra que, para essas três carteiras teóricas específicas, uma estratégia de
buy-and-hold, com pesos iguais no início de cada janela, sem rebalanceamento, rotação de ativos ou aportes, produziu resultados historicamente superiores ao CDI e ao Ibovespa de forma bastante consistente nos recortes analisados, sobretudo nos horizontes mais longos. Ao mesmo tempo, essa vantagem exigiu suportar volatilidade muito maior e quedas temporárias expressivas. O trabalho, portanto, não demonstra que qualquer carteira de ações necessariamente superará o CDI ou o Ibovespa, mas evidencia que o horizonte temporal, a composição da carteira e a capacidade de suportar oscilações são fatores importantes na comparação entre diferentes estratégias de investimento.
Fonte:
Ações versus CDI: evidência descritiva sob múltiplas datas finais, de Patrick Gerard Pin (2026).
https://papers.ssrn.com/sol3/papers.cfm?abstract_id=6552099