Preparar-se para envelhecer
Há algum tempo, eu e minha mulher conversávamos sobre uma coisa que considero cada vez mais importante:
é preciso se preparar para envelhecer muito antes de a velhice chegar.
E não estou falando apenas de dinheiro, saúde ou patrimônio. Estou falando de algo talvez ainda mais difícil de planejar:
o que vamos fazer com a nossa vida quando o trabalho deixar de ocupar boa parte dos nossos dias?
Nas nossas famílias temos vários idosos, muitos deles com mais de 75 anos, inclusive nossos pais, amém. E, convivendo com essas pessoas, uma diferença chama muito a nossa atenção.
Há aqueles que chegaram à aposentadoria sem construir interesses, hobbies, atividades ou novos projetos para essa fase da vida. Aos poucos, a rotina parece se resumir à casa, à televisão, ao clima, às notícias e às pequenas discussões do cotidiano. Muitas vezes, a impressão que passam é de que os dias perderam a direção.
Falta alguma coisa pela qual esperar.
Em contrapartida, temos, nas mesmas famílias, pessoas da mesma idade, até irmãos, que continuam ocupadas com plantas, fotografia, dança, teatro, viagens, chácaras, criações, atividades na igreja, encontros com amigos ou qualquer outra coisa que lhes dê interesse e propósito.
E a diferença aparece principalmente na conversa.
Enquanto algumas parecem apenas acompanhar a passagem do tempo, outras, mesmo com mais de 80 anos, ainda falam no futuro:
vou plantar isso; quero conhecer aquele lugar; vou fazer aquele curso; quero fotografar aquilo; preciso terminar esse projeto; vou trocar tal coisa.
Ainda existem planos. Ainda existem pequenos sonhos. Ainda existe expectativa.
Hoje, duas coisas chamaram minha atenção e imediatamente me fizeram escrever esse post:
1) Recebi um vídeo sobre
The Villages, uma enorme comunidade de aposentados na Flórida. Independentemente de se gostar ou não daquele modelo de vida, uma coisa chama atenção: existe ali toda uma estrutura criada em torno de convivência, esportes, clubes, atividades, hobbies e vida social.
O vídeo reforçou uma percepção que já vínhamos construindo observando nossos próprios familiares:
uma boa velhice não começa aos 70 ou aos 80 anos. Ela começa muito antes, quando construímos interesses, amizades, curiosidades e atividades que possam continuar existindo quando a profissão já não estiver no centro da nossa identidade.2) Depois, li um post do
@Huoya sobre estar aprendendo a cozinhar simplesmente pelo prazer de aprender, e não porque pretende virar chef. Há um parágrafo que achei maravilhoso:
"E eu sempre tenho que explicar que apenas quis aprender uma coisa nova, que estou só aproveitando o processo e que meio que tanto faz o que isso que estou fazendo vai se transformar. Até porque não é simples assim. Pode ser que eu só aprenda a cozinhar um pouco melhor e pronto. Já está ótimo."E talvez esteja justamente aí uma parte importante da preparação para envelhecer.
Aprender uma coisa nova sem precisar justificar para que ela serve. Cultivar interesses que não precisam virar profissão, renda, negócio ou especialidade. Fazer alguma coisa simplesmente porque aquilo nos dá prazer, desperta curiosidade e ocupa a mente.
Quem aprende aos
40, 50 ou 60 anos a encontrar prazer nesse processo provavelmente leva consigo algo muito valioso para os 70, 80 ou 90:
a capacidade de continuar interessado pela vida.
Talvez uma das coisas mais tristes seja chegar à velhice e descobrir que nunca pensamos no que fazer com ela, após ela já ter chegado. E talvez uma das mais bonitas seja encontrar alguém de 80 e poucos anos falando com entusiasmo sobre aquilo que pretende fazer na semana seguinte.
No fundo, não se trata apenas de viver mais.
Trata-se de continuar tendo motivo para acordar amanhã. Post do @Huoya
Baby Steps #VAILÁEFAZ! - Bastter.comVídeo do The Villages na Flórida:
