Nesse post vou contar por onde andei no tempo em que não estava mais aqui no fórum. É um texto longo. Eu recomendo a leitura ou vc pode colocar na sua IA favorita para vc ouvir como áudio.
Na primeira parte, vou contar o que se passou na minha vida, como adoeci e como consegui voltar aos trilhos. Na segunda, usarei minha história para discutir a ideia de Self-Reliance (Autoconfiança) de Emerson, o sentido da vida segundo Viktor Frankl e reflexões sobre identidade. Por fim, na terceira parte, explicarei meus maiores aprendizados e concluirei. E para quem ler até o final, vai ter foto!
1.
Mudei-me do Brasil para a Austrália em 2024 em busca do meu doutorado. Logo que cheguei, deparei-me com a minha maior barreira: a língua. Embora entender raramente fosse um problema (90% do que eu consumia já era em inglês e os outros 10% no bastter.com), eu não era e ainda não sou um falante fluente. Não tive a sorte de frequentar uma escola de idiomas quando criança; como minha família não tinha condições, aprendi por conta própria.
Devido a essa limitação, decidi aceitar todos os convites para sair. Logo fiz um amigo italiano e descobri que eles gostam tanto de festas quanto os brasileiros. O problema é que eu sou um pouco diferente e festas, baladas ou pubs nunca foram a minha praia. Mesmo assim, comecei a frequentar esses lugares, fiz novas amizades e saía com esse grupo para todo canto, tentando conversar ao máximo com as pessoas. Acredite: se me comunicar já era difícil, com música alta e lugares lotados, a situação ficava ainda pior.
Esses ambientes nunca me fizeram feliz. Sempre me senti deslocado, afinal, mesmo no Brasil, eu já evitava esses lugares. Após um tempo, comecei a me sentir mal. As amizades que eu fazia não pareciam conexões fortes; tudo soava distante. A ansiedade surgiu e, logo, deu lugar a uma profunda tristeza. O quadro evoluiu rapidamente para insônia e ataques de pânico (algo que eu nem sabia o que era até então). Foram semanas sem saber o que era dormir direito. Tenho tantas lembranças de acordar de madrugada, olhar pela janela do meu apartamento e chorar por horas a fio...
Olhando para trás, percebo que tudo isso se transformou em uma profunda sensação de autoculpa. Eu me torturava por ter me mudado e por ter deixado meus amigos no Brasil. Não gostava da minha rotina, e esses sentimentos me consumiram. Foram, sem dúvida, os piores meses da minha vida. Chegou um ponto em que decidi voltar, mesmo sem terminar o doutorado que havia começado. Eu achava que, ao comprar a passagem e me preparar para o retorno, ficaria aliviado. Pelo contrário, a sensação de culpa só piorou. O peso agora era por não terminar, por estar desistindo.
Como eu achava que já estava de saída, resolvi finalmente fazer as coisas que vinha adiando. Comprei lembranças (um canguru de pelúcia que me acompanha até hoje na minha mesa) e comecei a pedalar por lugares que sempre tive vontade de conhecer. Fiz trilhas inéditas, passei tardes na praia e fui a shows de bandas que raramente tocam no Brasil. Fui até voluntário nas finais do World Triathlon Championship do ano passado (morram de inveja, mas tenho uma foto segurando a bicicleta do Miguel Hidalgo, o vice-campeão mundial! Uma das minhas tarefas era levar as bicicletas dos profissionais da área de transição e, no caminho, é claro que eu dava uma espiada nos Garmins deles para ver a potência e outros dados).
De repente, vi-me feliz de novo. Formei novos laços com pessoas que me acompanhavam em shows, trilhas e pedaladas. Por incrível que pareça, eu havia me reencontrado. Então, tomei uma decisão: vendi minha passagem de volta e resolvi ficar para, pelo menos, concluir o doutorado.
Embora estivesse feliz nessa nova fase, ainda me sentia marcado por tudo o que havia enfrentado. Eu olhava para trás e pensava que, mesmo após superar aquilo, não me sentia nem um pouco mais forte. Pelo contrário: lembrar-me trazia dor e tristeza. E aqui vai uma lição valiosa que aprendi (e que o Paulo fala bastante nos chats): sofrimento nenhum te torna mais forte. A dor simplesmente existe. Às vezes tem um sentido, às vezes não; e, se você puder evitá-la, melhor.
O que me curou de verdade foi identificar esse sentimento de culpa e me perdoar. Um perdão genuíno. Olhar-me no espelho e admitir que cometi um erro, que faria diferente. Se soubesse do preço, talvez não tivesse me mudado e teria ficado perto de quem eu amo. Minha intenção nunca foi me causar dano; eu só queria uma vida melhor e acabei errando. Sou imperfeito e já falhei com outras pessoas também. Foi um longo processo até chegar a esse ponto, mas, quando finalmente consegui me perdoar, a mudança foi da água para o vinho. A sensação é, literalmente, a de soltar um fardo pesadíssimo.
E como estou hoje? Não vou mentir: ainda um pouco assustado e cauteloso com tudo o que aconteceu, mas feliz. Leve e tranquilo. Eu estou bem.
2.
Durante aqueles meses sombrios, consumi muito conteúdo de Ralph Waldo Emerson, um filósofo americano do século XIX. Seus textos geralmente não possuem traduções modernas e a escrita é bastante poética, o que torna a leitura desafiadora, porém recompensadora. O título deste meu relato é inspirado no ensaio mais famoso dele, no qual Emerson defende que você deve viver para si mesmo, guiado pelas suas próprias convicções e valores.
Em determinado trecho, o autor conta sobre um amigo que o importunava com questões religiosas, argumentando que, ao viver para si mesmo, ele poderia contrariar os princípios da igreja e que seus desejos poderiam vir "de baixo" e não "de cima". Emerson respondeu que, embora não acreditasse que suas vontades tivessem uma origem maligna, "se eu for o filho do Diabo, viverei no inferno" (em minha tradução livre). Deixando as referências religiosas de lado, interpreto isso como uma decisão deliberada de olhar para dentro, identificar os próprios valores e viver de acordo com eles, sem se moldar às expectativas alheias, venham de quem vierem. No meu caso, isso significou abraçar o que mais amo: outdoor stuff, como trilhas, bicicleta e ir a shows. As ideias de Emerson são muito mais complexas do que isso, mas acho que esse recorte já serve como guia.
Também li Viktor Frankl, psicólogo austríaco que sobreviveu ao Holocausto. Uma das ideias fundamentais de sua obra é que a vida não possui um sentido pronto; é você quem cria o seu. A vida te faz perguntas, e o seu trabalho é formular as respostas. É interessante notar como acabei construindo as minhas de maneira tão aleatória, mas sou extremamente grato por tê-las agora.
Essa reflexão me remete à ideia de identidade e à busca pelo "eu verdadeiro", algo em que eu, particularmente, não acredito. Penso que a identidade que você assume é apenas mais uma das respostas que você elabora; ela mesma é uma das perguntas que a vida te faz. Se eu entregasse as minhas memórias a você agora, você formaria uma visão sobre mim muito diferente daquela que eu tenho. Escrever este texto é, portanto, uma maneira de moldar minha própria identidade, de criar o meu "eu", respondendo à vida. No fim das contas, a única coisa que realmente conseguimos alterar é a nossa percepção do passado. Hoje, tenho uma visão de quem eu era no momento dos meus problemas, e me vejo como alguém que se perdeu e se reencontrou; no futuro, posso me enxergar de outra forma. A identidade é líquida, e moldá-la de um jeito que você goste é uma tarefa apenas sua, caso decida valorizar isso.
3.
Durante todo esse período, aprendi também a acolher a dor. Entendi que ela é apenas mais um sentimento e que, como qualquer outro, devo encará-la com atenção para decifrar a mensagem que está tentando me passar (como o alerta de que viver forçando a barra em ambientes onde me sinto deslocado não é o caminho, por exemplo). Descobri que cometo erros contra mim mesmo e que me perdoar foi mais difícil do que eu imaginaria, o que chega a ser irônico, já que eu conhecia perfeitamente a boa intenção do hilkon3 que cometeu o erro original. Acima de tudo, aprendi a me aceitar como sou: imperfeito, com lados bons e ruins.
Aprendi também a dizer "não" e a aceitar que, muitas vezes, minhas escolhas vão decepcionar alguém. Não trabalhar no fim de semana para adiantar uma apresentação de segunda-feira diminui o tempo que o colega terá para me dar feedback, por exemplo. Essa decisão decepciona o outro; mas, se eu escolher sacrificar meu fim de semana, estarei decepcionando a mim mesmo. Por muito tempo, optei por me decepcionar. Não mais.
Pensar que tudo isso aconteceu em apenas dois anos é insano. A sensação é de que se passaram mais de dez. Nunca evoluí tanto em toda a minha vida.
Para finalizar, gostaria de voltar a Emerson. Em um de seus textos, ele diz que o conto do homem que luta ferozmente contra a tempestade de neve, apenas para morrer a poucos passos de sua cabana, é um retrato do estado atual da humanidade. Com toda a humildade, eu discordo. Não há cabana pronta; você deve construir a sua no meio da tempestade, com o que tiver ao seu redor. Talvez você já esteja na sua cabana e nem tenha percebido, ou ela já esteja muito mais pronta do que você imagina. Espero que, em breve, você esteja no conforto da sua.
Obrigado por lerem até aqui. Espero, de coração, que meu relato e a minha história possam ajudar vocês a buscarem uma vida mais tranquila, com mais amor e carinho!
E aos usuários que me escreveram enquanto estive ausente: muito, muito obrigado. Pode parecer estranho, mas tenho um carinho gigantesco por essa comunidade. Peço desculpas por ter omitido a verdade antes; eu realmente não estava bem.
Abaixo, uma foto (entre tantas) da trilha de hoje!