Acho que vocês já entenderam que eu não acredito que uma boa vida brota do além, de ter coisas ou conquistas. A boa vida vem do desenvolvimento de habilidades que nos ajudem a andar, superar e lidar com as dificuldades do tempo que gastamos neste mundo.
É fascinante como essa distinção gera campos absolutamente distintos na psicologia e na saúde de forma geral. As habilidades e técnicas necessárias para lidar com um adoecimento geralmente não têm relação direta nenhuma com as habilidades e técnicas necessárias para se viver bem.
A diferença é explícita quando olhamos para o contraste entre o que precisa ser feito para lidar com um infarto e o que precisa ser feito para evitá-lo, ou para te dar mais chances de recuperação caso ele ocorra.
Dez anos atrás, um texto me sensibilizou muito sobre a habilidade de viver bem as últimas vezes:
https://www.nytimes.com/2015/02/19/opinion/oliver-sacks-on-learning-he-has-terminal-cancer.htmlMy Own Life – Third Act Project (sem paywall)
É uma reflexão do Oliver Sacks (neurologista que escreveu muitos livros sobre casos clínicos; é bem possível que qualquer pessoa na faixa dos 40 anos tenha visto adaptações para o cinema de algum dos casos dele) sobre a descoberta de que tinha poucos meses de vida (ele morreu 7 meses depois da publicação do artigo).
Na época, meu filho não tinha sequer um ano, e foi o meu maior professor no que diz respeito a lidar com as últimas vezes - não porque ele iria morrer, mas sim porque, com o desenvolvimento rápido que as crianças têm, muitas coisas estavam acontecendo pela última vez.
Eu não lido mal com aquilo que meu filho deixa de fazer. Pouca coisa me deixa mais feliz do que ver o desenvolvimento dele, e considero esse processo a prova de que milagres e coisas bonitas existem no mundo.
Pelo contrário: é bem possível que eu lidasse mal com o que ele ainda não tinha desenvolvido. Não que eu fosse um pai terrível, só tenho muita clareza de que passar meses sem dormir faz você lidar mal com certas coisas.
A partir do texto do Sacks e com muita paciência do meu filho, aprendi a estar atento às últimas vezes. A saber que, em algum momento, por qualquer motivo que seja, certas coisas acontecerão pela última vez (mesmo que não seja naquele instante exato).
Nos últimos 10 anos foram muitas: a última vez que troquei fraldas, que o alimentei, que dei banho, que estive no banho com ele, que ele dormiu comigo, que me chamou para ver um desenho que eu já tinha visto mil vezes, entre outras
Seguidas de tantas coisas ainda mais maravilhosas, que também já deixaram de acontecer.
É uma habilidade maravilhosa poder apreciar essas coisas que fatalmente acabam, sem a urgência de criar uma solução que não existe, poder viver o que está acontecendo, aberto para o que esta na sua frente, sem as preocupações tão humanas de querer controlar o hoje por causa do amanhã.
"This too shall pass..."
"Isso também passará..."
Apesar de conhecer a frase muitos anos antes de todos esses eventos, foi meu filho quem me ensinou a vivê-la.
Ou a ser possuído por ela, e não só a possuí-la, como diria Cummings.
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Esse era um texto que eu ensaiava escrever há muito tempo, e me pareceu o texto perfeito para ser minha despedida da bastter.com.
O que começou como um exercício de comunicação escrita (o mero compromisso de escrever alguns textos durante um ano) virou um processo imenso que mudou radicalmente a minha vida.
Dentro desse período, pude ajudar pessoas de formas que eu não considerava possíveis, e me desenvolvi por caminhos inimagináveis.
Espero que eu tenha conseguido ajudar todos vocês tanto quanto vocês me ajudaram.
Em especial, fica o meu agradecimento ao @mauro, ao @oxe e ao @bastter. Pessoas que foram fundamentais, cada um à sua maneira.
Fica o meu agradecimento geral a todos que interagiram comigo. Sigo dizendo que nunca recebi tantos obrigados na vida, e ainda acho que esse é o melhor feedback que eu poderia ter.
Encerro com as palavras de Sacks:
"Above all, I have been a sentient being, a thinking animal, on this beautiful planet, and that in itself has been an enormous privilege and adventure."
"Acima de tudo, fui um ser senciente, um animal pensante, neste belo planeta e isso, por si só, foi um enorme privilégio e uma grande aventura."